” Pois é senhor padre! Nem sempre galinha, nem sempre rainha!” D. João V
Estávamos em 1709 e em Portugal governava sua Majestade fidelíssima o rei D. João V. Uma das figuras mais discutidas e mais polémicas da história do nosso país. Muita gente a favor, muita gente contra, e isso, normalmente é bom sinal. O certo é que era uma altura óptima para se ser português, chegavam os galeões do Brasil carregados com barras de ouro: as barras dos quintos do Brasil. Portugal era um país próspero, rico e mandão. D. João V lançava um vasto número de obras monumentais, de que são exemplo o convento de Mafra, o aqueduto das águas livres ou a academia de história. Acontecia nesta altura ainda o envio de bolseiros portugueses para o estrangeiro e a contratação de professores reconhecidos para o ensino português.
D. João V desenvolveu ainda as artes menores (talha, azulejo e ourivesaria) e as artes maiores através de vários pintores e escultores que se deslocaram de Itália para trabalhar em Lisboa e Mafra. Por tudo isto, D. João V é considerado um mecenas da cultura e ciência portuguesa. D. João V terá sido ainda, por ventura, o melhor “ministro dos negócios estrangeiros” que tivemos, pois seguiu uma política de neutralidade em relação aos conflitos europeus, empenhando-se fortemente na defesa dos interesses portugueses no comércio ultramarino.
Este rei, pretendeu, à semelhança dos outros monarcas europeus, imitar Luís XIV. Defensor do absolutismo, não reuniu as Cortes uma única vez durante o seu reinado. Promoveu ainda o Tratado de Methuen, um acordo comercial assinado com o Reino Unido que facilitava as trocas do vinho do Porto pelos tecidos britânicos. Devido a todos estes alicerces que lançou no campo da cultura, da arte, da literatura, da ciência e do vinho, ficou conhecido por “o Magnânimo”.
Outra característica, particular, de D. João V valeu-lhe o cognome não-oficial de “O Freirático”. Segundo Alberto Pimental no livro “As Amantes de D. João V”, D. João V, era um galã, possuía essa altivez de porte, essa majestade sobranceira que o igualava a Luís XIV e que devia enlouquecer de orgulho a mulher que o visse rendido a seus pés, suplicante e apaixonado. Resultado disto? Muitas amantes, sobretudo freiras, por ser crente 😛 A frase “Flor da murta, raminho de freixo; deixar de amar-te é que eu não deixo!” era o seu piropo infalível.
Dona Maria era uma dessas suas amantes, e para lhe agradecer os serviços prestados à “coroa” (;)) portuguesa o rei D. João V oferece-lhe a casa da Quinta do Carmo (situada em Estremoz), um palácio senhorial do século XVIII, com muitos dos excessos do barroco. Estavam assim lançadas as sementes (por favor não leiam trocadilhos onde eles não existem ;)) para os actuais vinhos D. Maria.
Há aproximadamente 150 anos que se produz vinho nesta propriedade, mas é apenas a partir de 2003 que se fez a primeira vindima de uma nova etapa na longa vida desta Quinta, cujo conceito, é agora a produção de vinhos de qualidade aliado a um projecto familiar, que sempre distinguiu esta propriedade ao longo dos tempos. Há nestes vinhos uma nota evidente de terroir e um compromisso com uma certa elegância aristocrática, com uma finesse sofisticada. Vinhos com personalidade e sentimento de pertença.
Curiosamente o primeiro vinho de que vos vou falar hoje é o Dona Maria Amantis Reserva 2017 (16€, 89 pts.). Para além da genialidade do nome, este vinho amarelo dourado claro com ligeiros apontamentos esverdeados, carrega manga, alperce, puré de pêra, acácia-lima, murta e ligeiras notas a barrica muito bem casadas com os restantes aromas. Na boca é elegante, fino, estruturado e com uma frescura nada comum para aquela região. Por sua vez, o vermelho-violeta vivo Dona Maria Tinto (11€, 86 pts.) é muito rico nos aromas, com frutos do bosque, ameixa vermelha, cassis, cedro, ligeiro fumado e uma brisa floral (tomateiro). No palato é elegante, longo e equilibrado.
O Dona Maria Grande Reserva Tinto 2014 (35€, 94 pts.), é “vinho de outra pipa” ;). De cor rubi, exibe aromas de ameixa vermelha madura, mirtilos, fruta do bosque, hortelã-pimenta, cacau, freixo, pimenta preta e canela. Na boca confirma todos os predicados evidenciados no nariz, acrescentando intensidade, subtileza, elegância e taninos redondos. Tem tudo para ainda ficar maior em garrafa. Um bom vinho para celebrar o amor e que acompanhou na perfeição um “Risotto” de quinoa e bulgur com presa de porco ibérico.
E por falar em amor, voltemos a D. João V. Ficou célebre o seu tórrido romance com a freira Madre Paula, do mosteiro de S. Dinis em Odivelas, com quem teve inúmeros filhos, aos quais nunca nada faltou e ficando na história conhecidos pelos Meninos de Palhavã, porque residiam em Palhavã (num antigo Palácio onde actualmente está a embaixada de Espanha em Lisboa). A rainha consorte (neste caso não sei se o termo está muito bem empregue ;)), também de nome Maria, austríaca e desleixada (e muito feia contam alguns relatos antigos), sentindo-se rejeitada foi desabafar com um padre, seu confessor.
Uns dias mais tarde esse padre, conhecedor da devoção de D. João V, chamou o rei à razão. Então o rei ordenou ao cozinheiro que a partir desse dia, o padre passaria a comer todos os dias, apenas e só … galinha. Nos primeiros dias o padre até ficou satisfeito e deliciado com esta iguaria, ingrediente destinado apenas às mesas abastadas de então.
Mas passados uns meses o padre triste, enjoado e magro que nem um virote, foi queixar-se ao rei que o cozinheiro real apenas lhe dava … galinha. Foi então que o rei com ar de malandro lhe disse: “Pois é senhor padre! Nem sempre galinha, nem sempre rainha!”. 😉
“Risotto” de quinoa e bulgur com presa de porco ibérico
-Grelhem em azeite, alho e loureiro os pedaços de presa de porco ibérico. Depois de estarem bem tostados de ambos os lados acrescentem brandy, vinho do Porto Rubi e um pouco de sumo de limão e deixem cozinhar lentamente por 30 minutos até o molho reduzir bastante;
-Entretanto num tacho levem a ferver um grande volume de água com sal. Juntem a Quinoa e Bulgur (usei a mistura da Tipiak) e deixem cozer fervendo durante 12 minutos. Decantem de modo a ficarem com a quinoa e bulgur sem água. Voltem a introduzir no tacho, acrescentem manteiga, queijo parmesão, pimenta, um pouco de noz-moscada e duas colheres do molho do tacho onde estão a grelhar as presas.
Deixe um comentário