Vale da Raposa | Entre uma Baronesa e a fábula de Esopo

“As raízes não falam. Não estão atrás. Nem no fundo. As raízes vão à frente. Puxam-nos para a frente. Que querem elas dizer? Alegria, árvores, astros? Ou a intensa sombra do silêncio? Elas impelem-nos para a frente, para um futuro antigo… Há palavras que são sombras de árvores.” António Ramos Rosa

Vale da RaposaA produção de vinhos é uma tradição familiar para Domingos Alves de Sousa: o seu pai (Edmundo Alves de Sousa) e avô (Domingos Alves de Sousa) tinham já sido vitivinicultores do Douro. Mas Domingos Alves de Sousa abraçou a princípio uma outra carreira: Engenharia Civil. Não resistiu, porém, ao duplo apelo (da terra e do sangue), e abandonou as engenharias em 1987 para se dedicar em exclusivo à exploração das quintas que lhe couberam em herança e a outras que posteriormente adquiriu.

Vale da Raposa A evolução da sua actividade vitivinícola reveste-se de aspectos interessantes, quase paradigmáticos e merece um pouco de história. Durante muito tempo foi fornecedor de conhecidas e prestigiadas companhias como a Casa Ferreirinha. Tal como na fábula da raposa de Esopo, Alves de Sousa, olhava para as uvas mas não desfrutava delas 😉 Mas os problemas que afectaram o sector nos finais da década de 80, que tiveram como consequência um aumento exagerado dos custos de produção, fizeram-no pôr este “sistema” em causa.

Vale da RaposaFoi desta forma inusitada que os seus desejos saíram da sombra das árvores e que, em meados de 1992, Alves de Sousa lança aquele que seria o seu primeiro vinho, o Quinta do Vale da Raposa branco 1991, que desde logo cativou os especialistas. A Quinta do Vale da Raposa é contígua com a (mais famosa) Quinta da Gaivosa, sendo as duas muito difíceis de dissociar, porque onde termina uma, começa a outra. 

Vale da RaposaA reunião foi feita nos finais dos anos 80 por compra dos cerca de 18 ha que constituem a Quinta do Vale da Raposa. Tal facto veio comprovar o valor do terroir da Encosta da Gaivosa (nome pelo qual a zona é conhecida) e reconhecer todo o trabalho aí desenvolvido. É dos vinhos que Alves de Sousa produz nessa Quinta que vos vou falar hoje. 

Vale da RaposaComeçando pelo Vale da Raposa Rosé 2017 (7€, 85 pts.): Salmão na cor, traz consigo morangos, framboesa, toranja, excelente acidez e mineralidade (xisto molhado). Um vinho bastante gastronómico que foi um fiel amigo do improvável Arroz de netos.

Vale da RaposaSeguiu-se o Vale da Raposa Reserva Branco 2018 (11€, 88 pts.), de cor amarela citrina límpida, carrega toranja, ananás, casca de laranja, lima, cera, relva acabada de cortar e tosta muito ligeira. 

Vale da RaposaÉ um vinho com boa acidez e mineralidade, quase como a assumir o terroir onde nasceu e que combinou muito bem com a untuosidade de uma Tagliatelle à Bolonhesa.

Vale da Raposa

Para o final, um vinho que joga noutro campeonato, o Vale da Raposa Sousão 2017 (30€, 91 pts.). De cor rubi escura, quase opaca, tem um nariz incrível com notas apetroladas, ameixa preta madura, semente de eucalipto (aqueles sininhos que caiem dos eucaliptos), fósforo, baunilha, chocolate preto e esteva.

Vale da RaposaNa boca passeia-se sobranceiramente com taninos aguerridos mas bem conjugados com a excelente acidez e com uma untuosidade sedutora e  texturada.  É um vinho com tudo em dose extra, mas com equilíbrio e consonância, como se cada nota tivesse subido um tom. Precisa, no entanto de uns bons anos em garrafa e de não ser servido acima dos 16-18ºC. 

Vale da RaposaA harmonização com este “poderio” todo não é trivial, pois seria fácil o prato perder-se com tamanha exuberância deste Sousão. Escolhi uma Posta Baronesa, bróculos baby, arroz de cogumelos, queijo da serra e frutos do bosque, para mim foi perfeito 😉

Vale da RaposaTodos estes vinhos trazem consigo fortes raízes ligadas ao Douro, raízes que não os prendem ao Vale da Raposa, mas que, pelo contrário, os impulsionam para a frente, para um futuro antigo: o da memória, do vinho, da terra e do sangue.

Vale da RaposaA família Alves de Sousa foi daquelas com a qual o blogue desenvolveu uma relação mais próxima, desde que “abriu portas”, fico muito contente por nos continuarem a surpreender. Parabéns pelos vinhos, sobretudo por este último 😉

 

Tagliatelle à Bolonhesa

-Alourem um alho, uma cebola, pimento verde e pimento vermelho em azeite;

-Acrescentem bacon, chouriço e linguiça e cozinhem por mais 10 minutos;

-Acrescentem a carne de novilho, sal, pimenta, noz-moscada e paprika e cozinhem por mais 10 minutos;

-Acrescentem brandy e 2 tomates triturados;

– Cozam a Tagliatelle com sal e um fio de azeite até estar al dente;

-Sirvam com um pouco de queijo parmesão.

 

Posta Baronesa, bróculos baby, arroz de cogumelos, queijo da serra e frutos do bosque

(Arroz)

-Alourem um alho e uma cebola em azeite;

-Acrescentem os cogumelos partidos em quartos e cozinhem a baixa temperatura por 30 minutos;

-Acrescentem o arroz e um pouco de sal (não coloquem água) e deixem cozinhar a baixa temperatura por mais 30 minutos;

-No final tostem o arroz num tacho em azeite, alho e cebolinho.

(Carne)

– Grelhem as postas a temperatura bastante alta, com um pouco de azeite temperando apenas com sal e pimenta (se as postas forem altas, 2/3 minutos de cada lado bastam para a carne ficar rosada).

 

 

 


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