Tomate Coração de Boi do Douro | O Graal no Lugar Certo

«A amizade nasce naquele momento em que uma pessoa diz a outra: “O quê? Tu também? Pensava que era só eu…”» Clive Staples Lewis

Uma mesa vazia é apenas um móvel…

No final do século XV, Leonardo da Vinci recebeu a incumbência de pintar uma das cenas mais repetidas da tradição cristã. Tinha diante de si uma história de fé, amizade, lealdade, traição e despedida. Escolheu organizá-la em torno de uma mesa. A Última Ceia tornar-se-ia uma das imagens mais reconhecidas da história da arte. Cristo ao centro, os apóstolos distribuídos de ambos os lados, pão e vinho diante deles. Mas talvez parte da sua extraordinária força sobreviva para além do episódio religioso que representa. Porque Leonardo colocou algumas das emoções humanas mais profundas num cenário absolutamente quotidiano: pessoas sentadas à mesma mesa.

É à mesa que recebemos quem chega e guardamos lugar para quem esperamos. Passamos o pão, servimos o vinho, contamos histórias, discutimos, fazemos as pazes e prolongamos conversas muito depois de os pratos terem sido levantados. A mesa tanto pode separar dois desconhecidos como tornar difícil perceber, algumas horas depois, que alguma vez o foram.

Essa é uma das coisas mais bonitas que inventámos sem verdadeiramente darmos por isso. Uma mesa precisa do outro para cumprir aquilo que esperamos dela. Podemos comer sozinhos, evidentemente, mas sentarmo-nos à mesa pertence a outra ordem das coisas. Implica repartir espaço, aproximar corpos, passar um prato, encher o copo de alguém antes do nosso, conversar com quem está em frente. Em algum momento remoto da nossa história, alimentar-se deixou de ser apenas uma necessidade e tornou-se uma forma de relação.

As civilizações construíram muito de si à volta desse gesto. Mudaram os alimentos, os rituais, as religiões e as maneiras de receber, mas permaneceu essa estranha vontade humana de colocar alguma coisa no centro e reunir pessoas à sua volta. Talvez porque partilhar comida seja uma das maneiras mais elementares de dizer a alguém: senta-te, fica connosco, gostámos muito de ti.

É também por isso que certas festas são difíceis de explicar através de um programa.

Podemos enumerar provas, jantares, produtores, vinhos, conversas e prémios. Podemos dizer onde estivemos, quem ganhou, aquilo que provámos e quem encontrámos. Tudo isso conta uma festa. Mas não explica necessariamente aquilo que faz alguém querer pertencer-lhe.

A Bia talvez seja a melhor metáfora que encontrei para esta. Antes de agosto, começa a perguntar quando é a Festa do Tomate. Espera por ela com uma ansiedade reservada a muito poucas coisas e, pouco depois de regressarmos, surge inevitavelmente a pergunta seguinte: quando voltamos? É, de todos os eventos a que nos acompanha, aquele de que mais gosta. O Gui não faz exatamente a mesma contabilidade, mas entrega-se ao ambiente com igual entusiasmo. Não precisam de conhecer produtores, discutir variedades ou perceber o que distingue um bom Coração de Boi (apesar de já darem notas, tentarem provar todos e fazerem o seu próprio concurso :P). Pelo caminho, perceberam uma coisa bastante mais importante: sentem-se bem ali.

E nós também.

Talvez porque acabámos por fazer aquilo que acontece quando somos recebidos vezes suficientes com genuína alegria: deixámos de saber exatamente em que momento passámos de visitantes a fazer parte da paisagem humana.

A Celeste tem alguma responsabilidade nisso. Conhecemo-la noutras paragens, quando comunicava um restaurante e a gastronomia fez com que os nossos caminhos se cruzassem. O restaurante, infelizmente, ficou para trás, a amizade, felizmente, não. Talvez seja também assim que se reconhecem as pessoas que sabem verdadeiramente receber: algum tempo depois já não conseguimos perceber onde terminou a circunstância que nos apresentou e onde começou o afeto.

Na Festa do Tomate Coração de Boi do Douro sente-se muito disso.

Produtores, cozinheiros, organização, amigos, crianças, gente que regressa e gente que chega pela primeira vez misturam-se com uma naturalidade que nenhuma estratégia de comunicação conseguiria fabricar. Conversa-se com quem está ao lado, prova-se o que alguém trouxe, um copo aparece, uma cadeira arranja-se, uma criança desaparece para brincar e reaparece algures entre pessoas que entretanto deixaram de ser desconhecidas. Não se entra propriamente num evento. Entra-se numa espécie de casa temporariamente aumentada até cabermos todos.

Foi neste ambiente que a Quinta do Mourão recebeu este ano a XI edição do Concurso do Tomate Coração de Boi do Douro, naquela que foi a edição com maior participação de sempre. Durante dois dias, o tomate foi transformado e conservado, provado às cegas, discutido e, naturalmente, levado à mesa. Pelo meio, visitámos a quinta e descobrimos o Porto Knox, a extraordinária reserva histórica de Vinho do Porto da Quinta do Mourão (falaremos dela noutra publicação porque merece esse destaque), já que falar do Douro sem deixar o vinho entrar na conversa seria quase uma impossibilidade gramatical.

O momento central, contudo, era a prova cega. E, quando os nomes voltaram aos tomates: a Quinta do Ventozelo conquistou o primeiro lugar pelo segundo ano consecutivo, uma repetição que começa a dizer tanto sobre consistência como sobre excelência. A Quinta de Medim ficou em segundo lugar e a Quinta do Crasto completou o pódio. Mais interessante ainda é perceber que o concurso deixou de se limitar à pergunta sobre qual é o melhor tomate.

O debate “Como transformar o TCBD num activo económico do território”, com João Gonçalves, presidente da CIM Douro, Carlos Coelho, da Ivity, e Antonina Barbosa, diretora-geral da Falua, colocou uma questão bem mais importante: como fazer crescer o valor de um produto sem diminuir aquilo que o torna especial? Talvez o futuro do Coração de Boi não passe simplesmente por produzir mais, mas por fazer valer melhor aquilo que as pequenas hortas do Douro já fazem tão bem, envolvendo produtores, restaurantes, instituições e um território que percebeu que a gastronomia também pode ser uma forma de identidade.

Uma Festa do Tomate sem o Renato Cunha já seria difícil de imaginar. Junto aos potes sobre a fogueira, o Chef do Ferrugem voltou a fazer aquilo que tão bem sabe: interpretar o tomate sem o esconder, respeitando-o e fazendo-o brilhar. Desta vez, levou-o também ao seu tradicional leite-creme, onde a acidez vegetal do tomate veio contrariar a doçura e dar-lhe um equilíbrio inesperado. Resultou tão bem que arriscamos dizer: talvez ainda melhor do que o original, que já era muito bom. Este ano participou na festa mesmo a contas com um problema de saúde. Algumas pessoas simplesmente não sabem despir a camisola. E, cada vez que provamos alguma coisa sua, cresce uma certeza antiga: mais tarde ou mais cedo chegará aquilo que sabemos que tem de chegar. 😉

No dia seguinte, a festa seguiu para Arroios.

E é precisamente aí que Leonardo regressa a esta história.

O Tomate à Capella, integrado no Projeto Capella 2026, levou à aldeia uma combinação bastante mais humilde do que aquela que Leonardo pintou em Milão: tomate, azeite e flor de sal, numa prova realizada no interior da capela barroca. Cá fora, o Mercadinho da Capella reuniu vinhos do Douro DOC e Porto, petiscos, produtos locais e regionais, produtores, habitantes, visitantes, animação e, inevitavelmente, muito tomate.

Ficou-nos a faltar essa parte da festa. E talvez seja particularmente apropriado que, num texto que começou em torno de uma ceia pintada numa parede, tenha ficado por conhecer precisamente aquela que termina numa capela. A promessa, porém, ficou feita: para o ano estaremos lá.

Até porque gosto da imagem que ficou por viver. Depois da prova cega, dos prémios, do vinho e das discussões sobre o valor económico do produto, tudo termina reduzido ao essencial.

Um tomate. Azeite. Sal.

E pessoas à volta.

É uma festa de amigos para amigos, incluindo aqueles que ainda não sabem que o serão.

Este ano levámos a Sylvie e o Luís, nossos cunhados. Vieram pela primeira vez e, a avaliar pelo entusiasmo, suspeitamos de que lhes passámos o bichinho. Talvez seja assim que estas coisas crescem da melhor maneira: alguém traz consigo alguém de quem gosta verdadeiramente.

É também por isso que seria impossível escrever sobre esta festa fingindo a distância de quem simplesmente chegou, provou e avaliou. Não a temos. E seria intelectualmente desonesto inventá-la. Gostamos desta festa. Muito. É uma das nossas favoritas. Daquelas em que aquilo que está no prato importa imenso e, ainda assim, não consegue explicar sozinho aquilo que sentimos.

No centro de toda esta gente encontra-se, afinal, uma coisa extraordinariamente modesta.

Não uma iguaria rara trazida do outro lado do mundo. Não um produto que precise de luxo, técnica ou encenação para justificar o seu valor. Apenas aquilo que alguém retirou da terra e trouxe nas mãos.

Um tomate.

Grande, irregular, carnudo, delicado, imperfeito como quase tudo aquilo que a natureza faz melhor do que nós. Cultivado nas pequenas hortas do Douro, suficientemente simples para pedir pouco mais do que azeite e sal, suficientemente singular para mobilizar produtores, cozinheiros, instituições e toda uma região em seu redor.

Chamaram-lhe Coração de Boi por causa da forma.

Depois de viver esta festa, começo a suspeitar de que a anatomia ficou com demasiado protagonismo.

Porque a forma pode explicar o boi.

O coração explica tudo o resto.

Podíamos terminar com as iguarias por lá provadas, a música, os números, o alcance nas redes, as provas, os vinhos ou os debates. Seria uma forma rigorosa de contar o que aconteceu.

Mas continuaria a faltar aquilo que não aparece nos programas.

Os rostos que reconhecemos quando chegamos. As conversas que recomeçam sem apresentações. A Celeste. O Renato. A Sylvie e o Luís, que chegaram pela primeira vez e já perceberam que é difícil passar por esta festa sem ficar com vontade de lhe pertencer um bocadinho. O Gui, estranhamente feliz no meio da “confusão”. E a Bia, a melhor alegoria que encontrei para esta esta festa.

Não sei se quem a organiza pode receber elogio maior.

Leonardo precisou de pão e vinho para construir uma das imagens mais reconhecidas da nossa cultura. No Douro acrescentaram-lhe tomate.

Guardadas todas as distâncias, talvez ambas nos recordem uma coisa elementar: aquilo que colocamos sobre uma mesa pode ser extraordinário, mas nunca será mais importante do que as pessoas que conseguimos reunir à sua volta.

É por isso que voltaremos.

Pelo tomate, certamente.

Pelo boi, também.

Pelo coração, especialmente.

Pois, no fim, uma mesa vazia é apenas um móvel.


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