The Invite | O Concerto como Conserto

“Quando tocamos piano a quatro mãos, tocamos no nosso parceiro, podemos conversar, mesmo durante um concerto. É profundamente íntimo… A quatro mãos, conseguimos sentir profundamente a outra pessoa, a sua sensibilidade, a pulsação do seu coração.” Alexandre Tharaud

Diz-se muitas vezes que o contrário do amor é o ódio. Talvez seja uma das coisas mais injustas que dizemos sobre o amor.

O ódio ainda exige atenção. Para odiarmos alguém precisamos de continuar a reparar nele, recordar aquilo que fez, permitir que a sua existência provoque alguma coisa dentro de nós.

Talvez o verdadeiro contrário do amor seja a indiferença. Ou, pior ainda, o hábito.

Porque poucas coisas são tão perigosas numa relação como o momento em que deixamos de descobrir a pessoa que está ao nosso lado. Conhecemos-lhe as manias, os defeitos, aquilo que vai responder antes de responder. Sabemos tanto sobre ela que começamos a acreditar que já sabemos tudo.

E talvez seja precisamente aí que deixamos de a conhecer. É sobre isso, muito mais do que sobre sexo, que fala The Invite, de Olivia Wilde. The Invite adapta o filme espanhol Sentimental, de Cesc Gay, que, por sua vez, nasceu da peça de teatro Los vecinos de arriba, escrita pelo próprio realizador. A genealogia sente-se: poucas personagens, um espaço fechado e a palavra como principal arma. O cinema abre-nos a porta do apartamento, mas é o teatro que continua sentado à mesa.

Com essa premissa teatral Joe e Angela recebem para jantar os vizinhos do andar de cima, Hawk e Piña. Uns estão casados há anos e transformaram a intimidade numa sucessão de pequenas hostilidades. Os outros fazem sexo suficientemente ruidoso para atravessar o teto.

Quatro pessoas. Um apartamento. Uma noite. E uma quantidade perigosíssima de coisas que nunca deveriam ser ditas à mesa.

Quando Hawk e Piña lhes propõem uma experiência sexual a quatro, aquilo que colocam sobre a mesa não é apenas a possibilidade de trocar de parceiro. Colocam um espelho. E Joe e Angela não gostam daquilo que veem.

Gostei muito de Seth Rogen, permanentemente inquieto, como se Joe nunca conseguisse estar confortável dentro do próprio corpo. O embaraço e o riso nervoso que tantas vezes serviram a Rogen para fazer humor escondem aqui ressentimento. Queria ser músico, acabou professor e olha para a própria vida como uma versão diminuída daquela que imaginou. Angela tornou-se apenas o rosto mais próximo onde projetar essa desilusão.

Olivia Wilde responde-lhe com uma Angela impaciente, desejante, quase desesperada por encontrar alguma coisa. Arruma, organiza, controla, talvez porque ainda acredita que pôr a casa em ordem possa fazer o mesmo à sua vida. Quando descobrimos que se mostra nua diante da janela, o gesto parece-me menos erótico do que triste.

Angela não precisa apenas de ser desejada. Precisa de saber que ainda é vista.

Penélope Cruz compreende perfeitamente que Piña não necessita de competir com Angela. A sua sensualidade é precisamente o contrário da exibição. Está na voz, no olhar, na serenidade com que fala de coisas que deixam os outros desconfortáveis. E está também, convenhamos, em dois outros “pormenores” que vos deixarei o prazer de descobrir quando virem o filme :P. Quanto mais natural Piña considera o sexo, menos precisa de sexualizar-se.

E depois surge Edward Norton. Para mim, é nele que se esconde a chave para perceber The Invite a outro nível.

Durante grande parte da sua extraordinária carreira, Norton pareceu fascinado por homens que escondiam outro homem dentro de si (e não sejam mauzinhos, não estou a falar de Asteroid City :P). Primal Fear, Fight Club, The Illusionist, Birdman: personagens onde identidade, representação e verdade raramente coincidem inteiramente.

Hawk parece pertencer à mesma família. Até descobrirmos que Hawk era Howard.

Por trás daquele homem sexualmente liberto e quase irritantemente confortável consigo próprio existiu outro, destruído pela morte da mulher e obrigado a reconstruir-se depois dela.

Talvez seja uma das utilizações mais bonitas da persona cinematográfica de Norton: durante décadas vimos as suas personagens esconderem outros homens, aqui encontramos um homem que precisou de inventar outro para conseguir continuar a viver.

E, de repente, aquilo que parecia pose ganha passado.

Os diálogos são excelentes precisamente por isso. Atacam, defendem, seduzem, fazem rir e, de vez em quando, uma frase chega longe demais e obriga-nos a rever tudo aquilo que pensávamos saber sobre quem a pronunciou. A intensidade cresce quase sem sair daquele apartamento.

Durante boa parte do filme, Hawk e Piña parecem representar tudo aquilo que Joe e Angela perderam: liberdade, desejo, espontaneidade. E, apesar do sexo inevitavelmente prazeroso que uma personagem interpretada por Penélope Cruz deverá ajudar a providenciar, quando o filme terminou percebi uma coisa curiosa: não foi naquele casal sexualmente arrebatador que encontrei amor.

Vi desejo, liberdade, entendimento. Talvez amor também. Mas não foi isso que senti.

Amor encontrei em Joe e Angela. Um amor cansado, ressentido, ferido. Um amor que conhece tão bem o outro que sabe exatamente onde magoá-lo. Um amor doente. Mas ainda amor.

Quando finalmente admitem que o casamento acabou, Olivia Wilde poderia terminar ali.

Mas sobra um piano.

Joe, o músico que nunca chegou a ser, senta-se finalmente diante dele e toca.

Angela aproxima-se.

Senta-se ao seu lado.

E toca também.

Depois de um filme inteiro construído sobre diálogos, as duas pessoas que mais precisavam de se encontrar conseguem finalmente fazê-lo quando deixam de falar.

Não sei se é uma reconciliação ou uma despedida.

Sei apenas que aquele piano lhes dá a oportunidade de recuperarem o outro.

E é nesse instante que Howard, mesmo ausente, regressa ao filme.

Porque Howard também amou uma mulher. Mas perdeu-a.

Não lhe ficou uma última discussão, uma noite para tentar outra vez ou um piano diante do qual ambos pudessem descobrir se ainda se lembravam da mesma música.

Joe e Angela ainda têm essa possibilidade.

E gosto de pensar que talvez tenha sido esse, consciente ou inconscientemente, o verdadeiro propósito de Hawk naquela casa: um homem que não conseguiu recuperar a mulher que amava acaba por oferecer a duas outras pessoas a possibilidade de se recuperarem antes de se perderem definitivamente.

Entrou oferecendo-lhes outras pessoas. Saiu devolvendo-os um ao outro.

Talvez seja esse, afinal, o verdadeiro convite de The Invite.

Porque alguns amores adoecem e outros acabam. E existe uma diferença enorme entre ambos.

P.S. Se este filme vos surpreender pela riqueza dos diálogos, apesar das poucas personagens e de um único cenário, o teatro aguarda a vossa presença. 😉

😉


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