Quinta do Arrobe | Quem sai aos seus

“Quando as raízes são profundas, não há razão para temer o vento.” Provérbio Chinês

Quinta do ArrobePara quem, como eu, teve a enorme sorte de nascer no inicio dos anos 80 do século passado, o título desta publicação pode reavivar algumas memórias.  Se o título não chegar para vos tele-transportar para a vossa infância, a música de Jeff Barry e Thomas Wright Scott, Without Us vai encarregar-se disso. 😉 

Quinta do ArrobeServiu de banda sonora da série Quem sai aos seus (Family ties), uma das minhas favoritas (verdade seja dita, não haviam muitas mais ;)). Retrata a vida de um casal de dois ex-hippies/activistas de esquerda dos anos 60, Steven (Michael Gross) e Elyse Keaton (Meredith Baxter-Birney) e os seus esforços para criar uma família heterogénea nos anos 80.

Quinta do ArrobeA paternidade por si só já traz armadilhas suficientes, mas este casal deparou-se com vários desafios adicionais, nomeadamente a mistura de diversas filosofias entre gerações, o carácter peculiar do ultra-conservador Alex (Michael J. Fox), o feitio da rainha da popularidade Mallory (Justine Bateman) e o espírito livre de Jennifer (Tina Yothers).

Quinta do ArrobeEsta foi a série que catapultou Michael J. Fox para o estrelato antes da doença de Parkinson (ganhou 2 Emmys) e ela própria foi uma das mais bem sucedidas dessa altura, sendo a favorita do presidente Ronald Reagan. Nela, as diferenças geracionais entre pais e filhos assumiam um papel apaixonante, cómico e até mesmo educativo, pois o enredo espelhava as mudanças sociais nos anos 80, despertando-nos para a adaptação constante ao mundo envolvente e, sobretudo, ao crescimento e à mudança de cada um no seio da família, através dos tempos: uma espécie de legado em forma de raízes de valores.

Quinta do ArrobeE esse “legado familiar” tem tudo a ver com os vinhos que vos vou falar hoje. Vinhos fruto de um saber que atravessa um sonho antigo, iniciado pelo bisavô dos  irmãos Alexandre e Maria Gaspar (actuais proprietários), que plantou as primeiras vinhas em 1882 e que têm como objectivo principal levar-nos a viajar pelos sentidos, numa experiência mágica e sublime.

Quinta do ArrobeProcurando sempre a diferença e qualidade, os dois irmãos criaram várias marcas: Sensato, Mensagem, Oculto e Quinto Elemento, cada uma com uma simbologia muito própria. O Sensato é a gama de entrada, sensato porque é um vinho que nunca nos deixa ficar mal. Oculto e Mensagem são gama intermédia, sendo que o segundo é também uma homenagem a Fernando Pessoa. Os vinhos Quinto Elemento são o topo de gama e relacionam-se com os quatro elementos fundamentais para a vida, em que o quinto é precisamente o vinho. 

Quinta do ArrobeNa sequência de estudos geológicos efectuados na Quinta, com o objectivo de determinar os melhores locais para plantar, foram seleccionadas nas castas tintas o Castelão, Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Touriga Nacional e a Trincadeira Preta. Nas castas brancas o Arinto, Fernão Pires, Pinot Grigio, Verdelho, Sauvignon Blanc e Moscatel. São vinhos que fogem um pouco aquilo que esperamos da região Tejo, com frescura (devido a estar na encosta da Serra de Santo António), maturação (devido às elevadas temperaturas que por lá se fazem sentir) e salinidade (devido à proximidade ao mar e solos argilo-calcários).

Quinta do ArrobeEstes vinhos foram uns óptimos companheiros de uma longa almoçarada em família, no primeiro dia de Verão primaveril (a sério) do ano.  Começamos com as violetas, frutos silvestres, morangos e boa acidez do rosado Oculto Rosé 2018 (6€, 82 pts.); com a manga, papaia, melão, espargos, maçã verde, flor de laranjeira, mineralidade calcária, elegância e acidez bem integrada do amarelo-citrino Oculto Branco 2016 (6€, 85 pts.); com a cor rubi-violeta, fruta preta (amora e ameixa), acidez ponderada e taninos redondos do Oculto Tinto 2015 (6€, 84 pts.); e com a cereja preta, amora preta, mirtilos, canela, loureiro, caruma, untuosidade e elegância do Mensagem Reserva 2014 (12€, 88 pts.)

Quinta do ArrobeJá na gama Quinto Elemento gostei muito do Quinto Elemento Blanc de Noir Trincadeira Preta 2017 (17€, 88 pts.). De cor amarelo-citrina, límpida e cristalina carrega no nariz uma sedutora mineralidade calcária, maçã verde, uma surpreendente pimenta branca e suaves notas de barrica. Na boca volta a surpreender pela enorme estruturada, acidez vincada e final persistente.

Quinta do ArrobeO Quinto Elemento Arinto Reserva Chão de Calcário 2016 (14€, 88 pts.), amarelo palha com nuaces esverdeadas emanava aromas muito sedutores a  damasco, manga, lima e calcário molhado, mostrando-se na boca muito fresco, untuoso, com bom volume e textura por camadas.  

Quinta do ArrobePassando para os tintos, o Quinto Elemento Syrah Reserva 2015 (16€, 91 pts.) exibia uma cor rubi viva e aromas a frutos do bosque, fruta preta (amora e ameixa) e pimenta preta. No entanto, os melhores predicados deste vinho estão na boca, com uma estrutura, acidez e mineralidade muito bem casadas.  

Quinta do ArrobePor último, o Quinto Elemento Reserva Cabernet Sauvignon 2016 (20€, 93 pts.) está numa fase óptima de consumo. Trajando um vermelho grená bastante vivo, mostra aromas muito puros a groselha, morangos, cedro, cassis e pimenta preta. O palato é intenso, denso, fresco, mineral, com uns taninos deliciosos, e mais uma vez, para não fugir à regra, com uma excelente estrutura. 

Quinta do ArrobeTodos estes vinhos carregam o terroir de onde nasceram, com uma excelente acidez, boa maturação e uma mineralidade salivante, em que qualquer um deles acompanhou muito bem um Cabrito assado na brasa, no entanto, o meu favorito foi o Cabernet Sauvignon, por ter as especiarias mais vincadas.

Quinta do ArrobeSão vinhos que mostram que o Ribatejo não “serve” apenas para produções em massa e que uma visão familiar da vinha, do vinho e da vida só pode elevar a qualidade do que se põe dentro da garrafa, e não estou só a falar “apenas” do liquido. 😉 Vinhos originais, distintos e de excelência, características atribuídas pela singularidade do terroir, da adequação das castas e pelos laços familiares da família Gaspar.

Quinta do Arrobe

Porque nisto do vinho, dos afectos e da família, há coisas que não enganam, pois não Gui? Quando as raízes são profundas, não há razão para temer o vento 😉

Cabrito assado na brasa:

–Lavem o cabrito e dêem-lhe uns golpes e ponham-no de molho em água e sal durante pelo menos 2 horas (se o deixarem durante a noite ainda é melhor):
-Numa tigela misturem o azeite com o vinagre, loureiro, alho, tabasco, vinho do Porto, salsa e temperem com sal e pimenta. 
-Enxuguem o cabrito e untem-no com o molho preparado. Coloquem-no depois sobre brasas (misturem vides com o carvão para dar um toque extra) e vão virando e pincelando com o molho à medida que o cabrito for alourando.

 

 


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