Quinta da Casa Amarela | A verdade que ficou por escrever

“Escreve, se puderes, coisas que sejam tão improváveis como um sonho, tão absurdas como a lua-de-mel de um gafanhoto e tão verdadeiras como o simples coração de uma criança.” Ernest Hemingway

Casa AmarelaMisturando (pouco) ficção com (muita) autobiografia, Ernest Hemingway presenteou-nos com o livro deliciosamente genuíno “Verdade ao Amanhecer”. Este é um auto-retrato genial do seu último safari no Quénia. Escrito em 1953 a obra vai sendo tecida com história, riqueza, humor, valores e beleza.

Casa AmarelaHemingway quase que nos consegue transportar para o terroir africano: para a excitação da observação aos grandes animais selvagens, para a incomparável beleza da planície africana, para as melancólicas manhãs cobertas de nuvens ameaçadoras, para a admirável silhueta das zebras contra o pôr do sol no horizonte ou para os gritos das hienas numa noite escura e gelada. Mas mais importante que isso, Hemingway reflecte, sobretudo,  sobre o próprio ato de escrever, sobre a memória e sobre a verdade.

Casa AmarelaNo entanto, e paradoxalmente, este foi um livro que ficou por escrever. Com uma vida de excessos, com aventuras, mulheres (e muitas ;)) e vinho (do bom ;)), sua saúde física e psicológica começou a degradar-se, levando ao suicido em 1961. É o filho de Hemingway, que depois de ler os manuscritos deixados pelo seu pai, juntou as 200 mil palavras que compõem este livro, de verdade, sobre a verdade e sobre a verdade das memórias.

Casa Amarela

Foi por estas características que escolhi uma frase desse livro para metaforizar os vinhos da Quinta da Casa Amarela, que se situa na margem esquerda do Rio Douro, a meio caminho entre as cidades da Régua e Lamego. Encontra-se na posse da mesma família desde o ano de 1885 e a casa de habitação, reconstruida e ampliada no primeiro quartel do século passado, empresta o nome à propriedade, em virtude da cor amarela com que se encontra pintada. A tradição é, de facto, preservada nesta Quinta…

Casa Amarela Começa logo pela vinha, com uma idade média superior a 45 anos, instalada em terraços suportados por muros de pedra, onde a plantação acompanha as curvas de nível e cuja densidade maximiza o aproveitamento da energia solar e as fracas disponibilidades do solo xistoso, em termos de água e nutrientes. Começamos a descoberta dos seus vinhos pelo Quinta da Casa Amarela Rosé 2018 (10€, 85 pts.), de cor rosa avermelhada cristalina, transporta frutos silvestres, amora, leve floral (rosas) e uma inusitada mineralidade. Na boca é fresco, intenso e bastante descomplicado e ligou muito bem com uma salada de Verão (tomate, queijo fresco, abacate, ananás dos Açores, tâmaras, amêndoa picada, sal do Chipre e azeito do Douro ;)) 

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Já o Quinta da Casa Amarela Grande Reserva Branco 2018 (35€, 91 pts.), surgiu amarelo dourado límpido, com toranja, tangerina, limonete, maçã assada, flor de laranjeira, noz-moscada, cera, leve fumado e notas minerais (xisto molhado).  

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Na boca é estruturado, potente, fresco, denso, quase mastigável mas sem perder a elegância e classe. Acompanhou na perfeição um Linguado com molho doce de cebola, salsa, pimentos, malagueta e amendoim tostado. 

Casa AmarelaPassando para os tintos, o Casa Amarela Tinto 2018 (10€, 86 pts.) de cor rubi muito densa, trazia no nariz frutos silvestres, amoras, ameixa preta, violetas, esteva e baunilha. Na boca exibe taninos tão elegantes quanto surpreendentes,  equilíbrio e finesse. 

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Aumentando a profundidade chegamos ao Casa Amarela Tinto 2016 km 16(18€, 89 pts.), de cor rubi densa e evidenciando aromas a ameixa, doce de morango, mirtilos, amoras, alcaçuz, pimenta preta e esteva. No palato passeia-se com excelente acidez, durabilidade, equilíbrio e complexidade inesperada.

Casa AmarelaUm dos meus favoritos foi o Quinta Casa Amarela Reserva Tinto 2015 (25€, 90 pts.). No copo é vermelho-rubi intenso, no nariz mostra amoras, cereja madura, mirtilos, ameixa preta, sous-bois e no palato dá taninos muito aguerridos (mas com tendência a arredondar), uma acidez inebriante e uma persistência encantadora. 

Casa AmarelaTodos estes tintos acompanharam muito bem uma Barriga de porco ibérico com figos confitados e puré de chuchu, mas o que mais se destacou, como não poderia deixar de ser, foi o Quinta da Casa Amarela Elísio 2015 (45€, 93 pts.). Um vinho que, no entanto, exige umas boas horas de oxigenação para se exibir com todos os seus predicados. 

Casa AmarelaTraja um rubi quase opaco com apontamentos violetas, tem um nariz muito rico e completo com fruta do bosque, compota de ameixa, pimenta branca, húmus, chá verde, cacau, sous-bois, trufa e notas inesperadas a … terra húmida. 

Casa AmarelaCuriosamente, este vinho é uma homenagem a alguém que ensinou os actuais proprietários a respeitar e amar a … terra. De certeza que alguém no Céu, está muito contente 😉

Casa AmarelaDesde o rosé, até este incrível Elísio, passando pelos tintos e brancos com alma vincadamente duriense, são vinhos que de um modo ou de outro trazem sempre um elemento improvável na prova. O terroir genuíno é exactamente isso, carregar com orgulho as marcas que nos diferenciam, a simplicidade do que somos, os sonhos que construímos e a verdade com que nos associam.

Linguado com molho doce de cebola, salsa, pimentos, malagueta e amendoim tostado

-Para o molho cortem finamente 2 malaguetas vermelhas e sem sementes e juntem a 2 dentes de alho, 1 colher de açúcar mascavado,   1 colher de sopa de vinagre balsâmico, 3 colheres de sopa de azeite, 3 cebolinhas picadas, uma mão cheia de coentros, sumo de 2 limas e uma colher de sopa de brandy.  Misturem tudo muito bem;

-Para a cobertura esmaguem (levemente) 150g de amendoins descascados e juntem a 1 colher de chá de malagueta em pó e 2 colheres de azeite. Levem ao tacho até ficar bem tostado;

-Temperem o peixe com sal e pimenta (a pimenta coloquem apenas no lado com a pele), um pouco antes de o colocar na grelha. Deixem grelhar por cerca de 4 a 5 minutos de cada lado.

Barriga de porco ibérico com figos confitados e puré de chuchu

-Façam uma pasta com azeite, uma folha de louro, alhos com casca, pimenta preta e sal grosso. Temperem a barriga de porco ibérico com sal grosso, e de seguida barrem-na com a pasta dos dois lados. Juntem pimenta preta, o brandy e vinho do Porto, e levem ao forno com a pele virada para cima, durante 3h a 160 graus. Vão virando a cada meia hora;

-Para os figos confitados, coloquem as metades dos figos (com a parte cortada virada para baixo) num tacho e cozinhem lentamente durante 10 minutos. No final queimem-nos um pouco com um maçarico antes de servir;

-Depois de cozerem os chuchus e retirarem a água da cozedura juntem o alho, as natas, o leite e a manteiga e levem ao lume e deixem levantar fervura. Baixem o lume, tapem e deixem cozinhar até tudo ficar macio macio (10-12 minutos). Destapem e cozinhem até o líquido reduzir para metade (5 minutos) e temperem com sal. Passem num Passe-Vite até obterem um puré homogéneo. Juntem algumas sementes para terem um elemento crocante;

 

 

 


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