Quevedo | Favos de Mel e outras memórias

“Acende a luz e passa-me a garrafa, quando a manhã chegar já teremos perdido a vergonha… Nós só temos uma vida, então eu vou beber vinho e fingir que a única coisa que está a acabar é o tempo.“ James Arthur

QuevedoAs abelhas são bichos fascinantes por diversas razões. A principal, todos conhecemos: a da polinização. O papel das abelhas neste processo é crucial, já que cerca de 2% das abelhas selvagens do planeta são responsáveis pela polinização de 80% das culturas mundiais. Sem abelhas não haveriam frutos silvestres, tomates, abacates, favas, mangas, amêndoas, bananas e uvas. E sem uvas, meus amigos, não há vinho. Da próxima vez que decidirem matar um abelha, pensem pelo menos nesta última parte 😉

QuevedoHá outras razões menos conhecidas que tornam as abelhas famosas, a sua ética no trabalho, o xarope adocicado que produzem e a sua complexa estrutura social. Mas há ainda uma razão menos conhecida, elas são na verdade excelentes …. matemáticas. Os estudos mais recentes indicam que estes pequenos insectos são capazes de medir ângulos e interpretar a curvatura terrestre.  No entanto, a genialidade matemática das abelhas é levada ao extremo através de algo bem mais doce: os favos de mel. Esses favos que constituem a colmeia são o resultado de décadas e décadas de investigação cientifica destes pequenos seres.

QuevedoA colmeia serve-lhes de casa, protecção e armazém de alimentos. Mas porque é que elas terão escolhido esse padrão perfeitamente hexagonal para a construção dos favos? A resposta é tão simples, quanto genial. O arranjo hexagonal é aquele que lhes permite gastar menos cera na construção dessas pequenas suites individuais que são as estruturas hexágonoais dos favos ( é preciso 1 kg de mel para produzir apenas 100g de cera) e também aquele que lhes permite guardar mais quantidade de mel em menos espaço.

QuevedoSe olharmos com atenção para um desses favos de mel veremos estruturas muito compactas, sem desperdício de espaço e esteticamente muito agradáveis, que qualquer arquitecto teria orgulho em ter concebido. Para além deste gosto pela matemática, as abelhas têm muitas outras coisas em comum com os seres humanos, nomeadamente as similaridades de ambos os cérebros, o comportamento altruísta de alguns a favor da comunidade, a inteligência colectiva, algumas aptidões sociais, a capacidade que têm em associar alguns odores com determinada comida e (por esta não vão estar à espera)…. os benefícios para a saúde que retiramos do vinho.

QuevedoPois é meus amigos, se um dia uma abelha vos roubar um pouco do vosso vinho, já sabem que ela está apenas a pensar na saúde dela, e em jeito de agradecimento da polinização, deveríamos deixar  que ela o desfrutasse com calma e até com um pouco de queijo (agora já estou a exagerar ;)).  Tudo isto, para retirar uma conclusão que introduzirá o tema principal desta publicação, mel, comida e vinho, têm tudo a ver 😉 

QuevedoPor isso escolhi os Favos de Mel para introduzir os vinhos Quevedo que harmonizaram um jantar com os meus cunhados Joel e … Mel (este “gajo” não brinca ;)). Conheci os vinhos Quevedo aquando de uma vista ao Toca da Raposa no ano passado (a foto das princesas de abaixo é dessa altura) , e logo me apaixonei por eles. São o resultado de mais de 100 anos de tradição na viticultura. 

QuevedoOscar Quevedo e sua esposa Beatriz (gosto do nome ;)), os donos,  radicaram-se na região do Douro no fim dos anos 1970 e começaram a produção de uvas. Em 1990, deram início à construção da quinta, que hoje abriga a sede da Quevedo. São 100 hectares cultivados no Cima-Corgo e Douro Superior.  Desde 1999, Claudia, a filha do casal, é a enóloga da empresa. 

QuevedoÓscar, (nascido em 1983 como eu, um “tipo” porreiro, portanto), seu irmão, cuida do marketing e das exportações. Na equipa há ainda a Teresa que produz os vinhos DOC e outra Mel, bioquímica de formação e que tem a seu cargo as visitas e contacto com os media. Uma equipa pequena, mas muito bem organizada, funcional e que não tolera desperdícios, estilo colmeia 😉 

QuevedoO primeiro vinho que vos vou falar, o Claudia’s Reserva Branco 2019 (15€, 90 pts.) acompanhou as entradas (Guiozas e Tosta de confitado de caça, abacate e ovo de codorniz) e a Dourada com crosta de mostarda e amêndoas, maionese de abacate e legumes salteados.  De cor amarelo-citrino com reflexos dourados, este vinho exibe aromas de melão, pêssego, acácia-lima, anis, notas minerais (xisto molhado) e notas de madeira muito bem integrada. No palato tem uma acidez fantástica, bom volume e muita mineralidade e elegância. Gostei muito.

QuevedoPara o Bife Wellington (digam lá se o ponto da carne não está um espectáculo) escolhi o densamente rubi Claudia’s Reserva Tinto 2017 (15€, 91 pts.). No nariz é muito complexo com fruta preta (ameixa e amora), bagas silvestres, esteva, pimenta preta e cedro. 

QuevedoNo palato cresce muito com a excelente acidez, taninos aguerridos, enorme estrutura e, mais uma vez, incrível elegância. E era, então chegada a hora das sobremesas e … dos Porto.

QuevedoPara acompanhar a Floresta Negra (do Joel e da Mel, obrigadão cunhaditos ;)) nada melhor que o Quevedo Porto Crusted (engarrafado em 2016) (30€, 92 pts.). De cor avermelhada-grená muito densa carregava cerejas, morangos, mirtilos, pimenta preta e esteva. 

QuevedoNa boca é super elegante, macio, delicado, fresco e com um final deliciosamente interminável. Provavelmente o melhor Crusted que provei até hoje. O bolo poderia estar melhor, mas não se pode ter tudo 😉 Estou na brincadeira, a Mel nas sobremesas é como um relógio suíço (neste caso francês), estava impecável. 

Quevedo

O último vinho da noite (quente e longa) foi o Quevedo Porto Branco 30 anos (80€, 94 pts.). Tem uma cor lindíssima, âmbar dourada com pequenas pinceladas verdes. Emana notas sedutoras a compota de laranja, casca de laranja confitada, figos, nozes e … favos de mel. A complexidade da boca é tão grande como a do nariz, mostrando-se seca, rica, intensa, untuosa e equilibrada. 

Quevedo

É um vinho que ninguém consegue ficar indiferente, impressionante mesmo. Transportou-me para Ervedosa do Douro e para as sobremesas da Maria da Graça, boas memórias… Os vinhos Quevedo são feitos na vinha, puros, com terroir vincado e, também, portadores de valores. Porque a esse nível, se as abelhas até matemática aprendem connosco, também nós poderíamos aprender qualquer coisita com elas: amizade, resiliência, dedicação, união, expectativa, aprendizagem, superação, esforço e paixão. Voando pelos campos das relações humanas deveríamos ser capazes de reunir esse “pólen comportamental”, em cada um de nós para a criação de laços, realizações e memórias.

Quevedo Quase como se fossemos capazes de moldar dentro de nós um favo de mel, armazenando nele esse memórias, que por sua vez criarão a colmeia que constitui a nossa alma e o nosso carácter. Se assim fosse, os vários laços que vão sendo armazenados nos nossos depósitos de memória, tal e qual como acontece com as diferentes células que constituem a cera de abelha, seriam incapazes de serem destruídos, resistindo a tudo, até à chuva austera de desapontamentos e tempos incertos como os de hoje.

QuevedoÉ por isto que tenho a certeza a Quevedo saíra disto ainda mais forte, a colmeia deles está bem assente nos valores que preconizam. Está prometida uma visita (já adiada algumas vezes, desculpem) para quando o raio do Covid desaparecer (se este calor não o mata, só mesmo a vacina ;)). 

Obrigado Joel (o favo que guarda a Mel ;)) pela ajuda com os pratos, estes não eram fáceis e estiveste à altura. “Quando casarem dou-vos uma prenda” 😉

Dourada com crosta de mostarda e amêndoas, maionese de abacate e legumes salteados

-Para fazer a crosta, juntem mostarda (5 colheres de sopa), uma colher de sopa de de manteiga, um fio de azeite, amêndoas a gosto e pão ralado (5 colheres de sopa). Triturem tudo e levem ao forno a 220ºC até criar a crosta (10 minutos);

-Para a maionese coloquem num liquidificador a polpa de 3 abacates, suco de 2 limões,  1 colher (sopa) de mostarda, 1 dente de alho, um pouco de salsa, um fio de azeite, um pouco de sal e um pouco de brandy. Liquidifiquem e levem ao frigorífico durante pelo menos 3 horas; 

-Grelhem os lombos de dourada em azeite, sal, alho picado e amêndoas trituradas.

Bife Wellington

Receita de Gordon Ramsay (quando a  receita é boa não há que inventar ;))

Floresta Negra

 


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