Projeto Hail Mary | O Outro como Tentação do Eu

“Acreditas em Deus? Eu sei que é uma pergunta pessoal. Eu acredito. E acho que foi muito impressionante Ele ter criado a relatividade, não concordas? Quanto mais depressa vais, menos tempo experimentas. É como se Ele estivesse a convidar-nos a explorar o universo.” Andy Weir

A sobrevivência, quando elevada à escala cósmica, deixa de ser apenas um instinto para se tornar narrativa. Em Project Hail Mary, Andy Weir constrói essa narrativa com a precisão de um cientista e o entusiasmo quase juvenil de quem acredita que cada problema contém, latente, a sua solução. O romance aposta numa clareza quase pedagógica, guiando o leitor por uma sucessão de desafios onde o conhecimento é ferramenta, abrigo e, em última instância, redenção.

Essa confiança na razão é um dos seus maiores encantos. Num tempo saturado de distopias desesperadas, Weir escolhe um caminho diferente, não tanto otimista … quase funcional: o mundo pode estar à beira do colapso, mas ainda há quem saiba como pensar. A ciência surge, assim, não como abstração elitista, mas como linguagem prática, quase doméstica, um prolongamento da curiosidade humana. Contudo, há algo de deliberadamente simplificado nesta abordagem. A complexidade científica, que noutros contextos poderia mergulhar o leitor num labirinto de incertezas, é aqui frequentemente domesticada, tornada transparente, quase excessivamente acessível. Pressente-se que, sob a superfície elegante, existe uma profundidade maior que o filme opta por não explorar plenamente, como se a vertigem do desconhecido fosse suavizada para manter intacto o ritmo da aventura.

É neste equilíbrio entre rigor e legibilidade que o romance se torna simultaneamente cativante e, por vezes, ligeiramente contido. Também é verdade que a ciência está presente, mas raramente pesa; explica, mas raramente transpira. E talvez seja precisamente essa ausência de fricção, essa recusa em deixar o conhecimento permanecer opaco ou misterioso, que revela uma escolha estética clara: Project Hail Mary não quer ser um tratado sobre o desconhecido, mas uma celebração da sua domesticação.

No centro da narrativa emerge, inevitavelmente, a relação entre Ryland Grace (Ryan Gosling) e Rocky, um dos elementos mais memoráveis do livro, mas também um dos mais frágeis do ponto de vista do filme. O encontro com o radicalmente outro é, na história da literatura e da filosofia, um momento de rutura: exige deslocação, desconforto, um reconhecimento daquilo que escapa às nossas categorias. Aqui, porém, essa alteridade é rapidamente traduzida, decifrada e, em certa medida, assimilada. Rocky, apesar da sua natureza alienígena, torna-se surpreendentemente legível, emocionalmente próximo, quase reconfortante.

Há, sem dúvida, beleza nessa ligação. A amizade que se constrói no vazio do espaço funciona como um argumento poderoso em favor de uma ética universalista: a ideia de que a cooperação ultrapassa a biologia, a linguagem e a origem. No entanto, a velocidade e a intensidade com que essa relação se desenvolve retiram-lhe alguma espessura. O que poderia ser uma exploração mais lenta, mais ambígua, da diferença, com todas as suas tensões, incompreensões e assimetrias, transforma-se numa quase inevitabilidade afetiva.

Neste sentido, o livro parece ecoar um impulso muito humano: o de reconhecer no outro aquilo que já sabemos reconhecer em nós. Rocky não permanece verdadeiramente estranho; é, antes, progressivamente humanizado. E essa humanização, embora emocionalmente eficaz, levanta uma questão mais funda: será que conseguimos imaginar o outro sem o transformar num reflexo de nós próprios? Ou será essa transformação, precisamente, o único modo de o tornar suportável?

O Project Hail Mary inscreve-se numa tradição muito particular da ficção científica contemporânea, aquela que privilegia o indivíduo engenhoso como último bastião da sobrevivência coletiva. Ainda que o destino da Terra esteja em jogo, a resolução passa, em larga medida, pela ação de uma consciência singular, resiliente e adaptável de um de nós. É uma visão que dialoga com uma certa mitologia moderna do herói comum: não o guerreiro, mas o solucionador de problemas, o sujeito que pensa melhor (ou mais rapidamente) do que todos os outros.

E, no entanto, nesse gesto reside também uma contradição silenciosa. Ao mesmo tempo que celebra a colaboração, entre espécies, entre saberes, o livro reafirma uma centralidade quase exclusiva do indivíduo como agente decisivo. A salvação coletiva continua, de alguma forma, dependente de um percurso solitário.

Depois dos créditos, o filme Project Hail Mary revela-se como uma obra agridoce. É inteligente, ágil, movida por um entusiasmo contagiante pela capacidade humana de compreender e agir. Mas essa sedução traz consigo um conjunto de escolhas que merecem ser interrogadas. A ciência, simplificada para ser acessível, perde parte da sua estranheza; o outro, tornado íntimo demasiado depressa, perde parte da sua irreducibilidade.

E talvez seja precisamente nesse intervalo, entre aquilo que o livro revela com clareza e aquilo que escolhe simplificar, que Project Hail Mary se torna mais inquietante. Porque, no limite, não é apenas a sobrevivência que está em causa, nem sequer a inteligência como instrumento de resolução, mas a forma como atribuímos sentido ao que nos excede.

Numa opinião marcadamente mais pessoal, há, por baixo da mecânica elegante da narrativa do livro, bem menos visível no filme, um suspiro que nunca se afirma totalmente, mas que persiste como uma presença discreta: a ideia de que compreender o universo é, também, confrontar o seu mistério.

Habituámo-nos a aceitar que da matéria bruta possa nascer a consciência, que aquilo que parece inerte contenha, em si, o princípio do humano, e que os avanços que hoje tratamos por ciência teriam sido, noutros tempos, indistinguíveis de magia. E, no entanto, continua a ser mais fácil acreditar nesse milagre contínuo do que reconhecer nele a possibilidade, apenas a possibilidade, de Deus. No filme, esse sussurro resume-se a uma frase: “Acreditas em Deus? … Eu acredito. É melhor do que a alternativa.”

Talvez, por isso e no fim, Project Hail Mary não seja apenas uma história sobre salvar o mundo, mas sobre a dificuldade, profundamente contemporânea, de olhar para o incompreensível sem o reduzir, seja pela razão, seja pela necessidade de o tornar familiar. Porque, entre o outro que tentamos compreender e o universo que insistimos em explicar, permanece sempre algo que resiste: não à inteligência, mas à nossa vontade de o transformar em reflexo de nós próprios.


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