Palácio dos Távoras | Desassossegadamente caídos do céu

“Sim, outrora eu era daqui, hoje, a cada paisagem nova para mim regresso estrangeiro, forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim… Tenho uma espécie de dever de sonhar sempre, pois não sendo mais do que um espectador de mim mesmo, tenho que ter o melhor espectáculo que posso.” Fernando Pessoa

Palácio dos TavorasPublicado um ano antes de eu nascer e 47 anos após a morte de Fernando Pessoa (no ano de 1982), “O Livro do Desassossego” tem como autor Bernardo Soares, o seu semi-heterónimo. “Semi” porque essa personalidade apresenta características muito semelhantes às de Fernando Pessoa, que a usa para construir a sua própria biografia: as suas confissões.

Palácio dos TavorasO livro foi desenhado como um labirinto onde é muito fácil o leitor se perder. São mais de 500 textos sem inicio, meio, nem fim, que demoraram 20 anos a serem escritos, ficando, ainda assim, incompletos.

Palácio dos TávorasÉ um livro inquietante que nos leva a tentar perceber quem somos, porque somos, para quem somos e, particularmente, de onde somos. Onde sentimos que pertencemos e onde nos sentimos estrangeiros. 

Palácio dos TávorasSerá que este tipo de questões de pertença também se colocam para uma casta? Será que o terroir tradicional de um tipo de uva, terá, obrigatoriamente de ser castrador da criatividade de um enólogo? A todas estas questões António Costa Boal (produtor) e Paulo Nunes (enólogo) respondem com um redondo “não”, materializado nos vinhos Palácio dos Távoras.

Palácio dos TávorasConheci um pouco melhor estes vinhos esta semana aquando do lançamento online do novo Palácio dos Távoras Baga 2016, o primeiro vinho desta casta na região de Trás-os-Montes. A afamada casta da Bairrada encontrou no planalto de Mirandela condições para a produção de um varietal de qualidade e, o que há uns anos seria impensável … concretizou–se.

Palácio dos TávorasDeve parte do seu nome, a Parcela CB, a Carolina Boal, filha de António Boal e que em 2012 ajudou a plantar a parcela de Baga. Parcela essa que parece caída do céu, uma vez que resulta de um feliz acaso. Enquanto plantavam  Touriga Nacional a equipa da Costa Boal ficou sem plantas e encomendou mais algumas ao fornecedor, mas nesse ano, já só haviam Baga. E assim nasce um grande vinho 😉

Palácio dos TávorasO Palácio dos Távoras Parcela CB Baga 2016 (20€, 91 pts.) de cor rubi cristalina exibe ameixa preta, amora vermelha, silo, suave “cola balsâmica” (não como defeito mas mais na linha de uma resina picante discreta) e notas ligeiramente abaunilhadas e fumadas (no nariz não engana, é Baga). No palato, confunde um pouco a nossa percepção, porque é rústico (respeitando a casta), muito fresco (respeitando a região), quente, seco, com taninos austeros, equilibrado e longo. Agrada tanto ao palato como ao intelecto e tem tudo para crescer em garrafa.

Palácio dos TávorasEsta acidez e rusticidade acompanharam na perfeição a untuosidade de um Lombo de boi, endívias braseadas, ervilhas, grão e jus de carne. 

Palácio dos TávorasAproveitei a ocasião para harmonizar este prato, também com o Palácio do Távoras Alicante Bouschet 2017 (30€, 90 pts.). É um vinho rubi denso, muito perfumado com compota de frutos silvestres, mirtilos, ginja, cacau, feno e pimenta preta. Na boca demonstra excelente volume, estrutura, concentração e taninos elegantes. 

Palácio dos TávorasJá no dia seguinte, mais dois vinhos Palácio dos Távoras, e ambos de vinhas velhas, uma marca desta casa. Primeiro o Palácio os Távoras Vinhas Velhas Branco 2018 (20€, 90 pts.), que trajava amarelo citrino descorado e exibia no nariz flor de laranjeira, toranja, limonete e notas minerais a pedra molhada (quase salina). No palato é muito complexo, harmonioso, fresco, elegante, cheio e persistente. Gostei muito.

Palácio dos TávorasPara último e para acompanhar um queijo da Serra com cura de seis meses um vinho de aroma muito bonito,  o Palácio dos Távoras Vinhas Velhas Tinto 2016 (20€, 91 pts.). De cor rubi intensa e limpa, carrega frutos silvestres, ameixa, morangos,  cacau, pimenta preta, brisas vegetais e leves fumados. Na boca é muito elegante, redondo, com bela acidez e muito persistente.

Palácio dos TávorasVinhos que parecem caídos do céu, quer pela origem das castas, quer pela elegância com que se pavoneiam perante os nossos sentidos, mas que na realidade resultam de um trabalho, dedicado, persistente e com conhecimento de causa. 

Palácio dos TávorasE como se costuma dizer, a nossa casa, é onde somos bem tratados, tenho a certeza que a Baga não se sentirá muito mal, estrangeira ou forasteira nesta sua nova morada. Muitas vezes para percebermos quem somos temos de nos dar a conhecer em paisagem novas 😉 Parabéns ao António Boal e ao  Paulo Nunes, com vinhos como estes têm uma espécie de dever de sonhar sempre 😉

Lombo de boi, endívias braseadas, ervilhas, grão e jus de carne:

-Para o jus de carne, usem alguns ossos ainda com pedaços de carne (peçam no talho, se for de novilho ou borrego, melhor); cebola, cenoura e aipo partidos grosseiramente; e deixem cozinhar por 2 horas em lume brando. No final da cozedura coem o preparado para ficarem apenas com o liquido. Juntem manteiga, sal, pimenta, vinho do Porto e um pouco de limão. Deixem reduzir para metade em lume brando;

-Grelhem levemente (3 minutos) em manteiga, as ervilhas de quebrar, as ervilhas e o grão de bico;

-Levem azeite ao lume numa frigideira com o açúcar mascavado e noz moscada e deixem derreter. Introduzam as endívias com a parte cortada virada para baixo (e sem a parte de baixo do talo). Tapem e deixem suar sobre lume brando. Junte sumo de limão, brandy e reservem;

-Grelhem em manteiga o naco de boi em lume muito forte, dois minutos de cada lado, com flor se sal e pimenta preta.


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