Óscares 2026 | O que o aplauso consagra já o silêncio nos tinha dito

“A realidade não é arte; mas uma arte realista é a que consegue criar uma estética integral da realidade.” André Bazin

Há noites em que o cinema parece um relógio: tudo encaixa, a maquinaria cumpre o seu ritual, as engrenagens do consenso rodam sem esforço. Os Óscares são, todos os anos, esse encontro entre arte e indústria, risco e conforto, horizonte e retrovisor. O que a Academia escolhe não é “a Verdade” do cinema. É um retrato do gosto coletivo de um grupo de especialistas, num tempo específico, sobre filmes que, com sorte, sobreviverão a esse mesmo tempo.

Gosto de ver a cerimónia assim: como um exercício de escuta. Ouvimos o que a Academia diz sobre o ano que passou e, depois, confrontamos isso com o nosso próprio ouvido. Este ano, o meu ouvido saiu quase em sintonia com a sala. Gostei muito de One Battle After Another; gostei ainda mais de Sinners. Só num ponto fiquei fora do coro: o Óscar de Melhor Som. Para mim, merecia ser de Sinners, embora reconheça que não é uma categoria que me tire o sono.

Posto isto, vamos ao essencial: quem ganhou e porquê, no meu olhar (com a devida nota de rodapé: os factos são públicos; as interpretações, pessoais).

Os grandes prémios

Melhor Argumento Adaptado: One Battle After Another (Paul Thomas Anderson)
Adaptação que não serve o texto: recria‑o. A linguagem de PTA transforma origem em destino.

Melhor Filme : One Battle After Another
O filme de PTA oferece o que a Academia tende a premiar: visão coesa, ambição formal sem exibicionismo e um comentário político legível. Mesmo não sendo o meu nº 1, percebo a vitória, é um triunfo do equilíbrio e dos finais que não são para todos.

Melhor Realização: Paul Thomas Anderson (One Battle After Another)
Direção sem aspas: rigor de mise‑en‑scène, tempos muito controlados e um mosaico de performances afinado à batuta. Um daqueles casos em que a assinatura autoral coincide com a eficácia narrativa.

Melhor Ator: Michael B. Jordan (Sinners)
Este era óbvio para mim. Um desempenho com músculo e porosidade emocional, a servir um filme que respira através dele. Foi um dos momentos “justiça poética” da noite.

Melhor Atriz: Jessie Buckley (Hamnet)
Outra obviedade. Interpretação cheia de camadas: vulnerabilidade sem sentimentalismo, dor sem histeria. Fica para a história um dos choros mais “de dentro” do cinema.

Melhor Ator Secundário: Sean Penn (One Battle After Another)
Mesmo sem estar presente na cerimónia, venceu pela força de uma interpretação dura, desconfortável, mas tecnicamente irrepreensível. (Curiosidade: Penn tornou‑se um raríssimo tricampeão de representação.)

Melhor Atriz Secundária: Amy Madigan (Weapons)
Aquele tipo de papel que entra em cena e assombra a sala. Uma vitória de presença e precisão.

Melhor Argumento Original: Sinners (Ryan Coogler)
Risco, identidade e uma mescla entre género e comentário social que sabe a cinema de agora. Um dos troféus mais merecidos da noite.

As categorias artísticas e técnicas (e o que contam de cada filme)

Fotografia: Sinners (Autumn Durald Arkapaw)
Vitória histórica (primeira mulher a ganhar a categoria) e merecida: uma imagem que esculpe espaço e vibração dramática.

Montagem: One Battle After Another (Andy Jurgensen)
O pulso do filme está na tesoura: ritmo que respira e aperta conforme a cena pede. A cena na estrada com lombas também fica para a história.

Música (Partitura Original): Sinners (Ludwig Göransson)
Não podeia ser outro. Partitura que não sublinha: envolve, magnetiza, dá corpo ao subtexto.

Canção Original: “Golden”, KPop Demon Hunters
Refrão com ADN de hino pop e função narrativa clara. Um momento bonito de representatividade na cerimónia.

Som: F1
Não consegui ver o filme todo e talvez por isso, o meu único desacordo: em Sinners, o som é coluna vertebral da atmosfera, eu teria votado aí. Mas admito: não é uma categoria que, para mim, pese tanto no balanço final.

Direção de Arte (Produção): Frankenstein
Mundo construído ao milímetro: textura, escala e uma coerência plástica que nos “prende” dentro do laboratório estético do filme.

Guarda‑roupa: Frankenstein
Figurinos como dramaturgia: contornam corpos, épocas e monstros com elegância funcional.

Maquilhagem e Cabelos: Frankenstein
O design de pele e próteses é narrativa pura. A transformação física nunca distrai, serve a personagem.

Efeitos Visuais: Avatar: Fire & Ash
O habitual: um patamar industrial que redefine o standard do fotorrealismo e da integração luz‑matéria.

Filme Internacional: Sentimental Value (Noruega)
Sensibilidade escandinava a fazer o que sabe: intimidade, ambiguidade moral, arejamento formal.

Filme de Animação: KPop Demon Hunters
Energia, cor e um sentido pop que casa espetáculo com gesto identitário e que também brilhou em Canção.

Documentário: Mr. Nobody Against Putin
A Academia alinhou com o urgente: olhar político com musculatura de arquivo.

Casting (estreia da categoria): One Battle After Another
Estrear a categoria com uma vitória destas faz sentido: um filme de ensemble onde cada rosto parece essencial.

Curta Live Action: The Singers & Two People Exchanging Saliva (empate)
Este não vou comentar porque não vi nenhum dos dois.

Curta de Animação: The Girl Who Cried Pearls
Delicadeza visual ao serviço de um imaginário que fica depois dos créditos.

Curta Documental: All the Empty Rooms
A força do “pouco” quando é dito com rigor: um gesto de observação que não pede adjetivos

Saio da cerimónia quase totalmente de acordo com a Academia, o que não é costume nem obrigação. Gosto muito de Battle. Gosto ainda mais de Sinners. E só me afasto no som, onde, para mim, Sinners teve a batida mais funda, aquela respiração acústica que, como lembrava Michel Chion, não ilustra a imagem: pensa com ela. No essencial, fico com o que mais me interessa nos Óscares: para lá do palmarés, a noite deixa pistas de pensamento sobre o cinema. A imagem que respira (o quadro que dá tempo às coisas para acontecer), o som que decide (quando a matéria sonora conduz a emoção e não apenas a sublinha), a montagem que pensa (no sentido eisensteiniano de criar ideias no choque dos planos), a representação que nos dá futuro (atores que inventam maneiras novas de estar no ecrã).

Este ano teve ainda uma pequena satisfação pessoal: três dos meus quatro filmes favoritos ocuparam as “três primeiras posições” do meu pódio íntimo; o quarto é Hamnet, que, infelizmente, saiu apenas com um Óscar, justo, ainda assim, pela entrega da Jessie Buckley.


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