“A violência é o último refúgio do incompetente.” Isaac Asimov

Há lugares que não são apenas geográficos. São advertências. Ormuz é um desses pontos onde a História se estreita, onde o mar se transforma em fronteira e onde a ambição humana, invariavelmente, tropeça. Hoje, como há cinco séculos, Ormuz continua a ser mais do que uma passagem marítima: é um espelho das ilusões imperiais e um lembrete de que há zonas do mundo que não toleram arrogância.
Poucos portugueses sabem, e menos ainda compreendem, que aquele estreito já foi português. Em 1507, Afonso de Albuquerque tomou Ormuz numa das operações mais audaciosas da expansão marítima. E ao escrever ao rei, D. Manuel I, o Venturoso, deixou uma das frases mais lúcidas da estratégia global do seu tempo:
“Quem domina o mar, domina as especiarias; quem domina as especiarias, domina as riquezas; quem domina as riquezas, domina o mundo.”
Era a equação perfeita da ordem económica do século XVI. Hoje, mudaram os bens, mas não mudou a lógica: onde antes fluíam especiarias, fluem agora petróleo e gás; onde antes se disputavam rotas, disputam-se agora cadeias energéticas. Ormuz continua a ser o gargalo por onde passa a respiração económica do planeta.
O estreito que promete o mundo e destrói quem o tenta possuir
A História tem um sentido de humor cruel. O mesmo estreito que parecia oferecer o domínio global foi também o lugar onde sucessivas potências descobriram que controlar Ormuz é tentar controlar o incontrolável. Os portugueses aprenderam-no cedo: a riqueza estratégica do estreito atraiu inimigos, intrigas, pressões externas e traições internas. O que parecia uma chave tornou-se um peso impossível de segurar.
Depois vieram outros. Persas, otomanos, britânicos, holandeses, e mais recentemente as grandes potências contemporâneas. Todos repetiram o mesmo erro: acreditar que a força militar pode estabilizar um ponto que, por natureza, é instável. Todos descobriram que Ormuz não é um território: é um equilíbrio. E equilíbrios não se conquistam; preservam-se.
Atacar Ormuz, pressioná-lo, manipulá-lo: tudo isso é historicamente um erro. Não apenas porque desencadeia reacções imprevisíveis, mas porque ignora a verdade essencial: o estreito é demasiado pequeno para caber dentro de qualquer ambição imperial, mas demasiado grande para ser ignorado por quem depende dele.
O perigo contemporâneo: repetir o passado com armas mais destrutivas
Hoje, quando as tensões militares voltam a crescer na região, o mundo parece esquecer que Ormuz é um fósforo guardado dentro de um barril de petróleo. Qualquer faísca, um ataque, um bloqueio, uma retaliação, pode incendiar não apenas o Médio Oriente, mas a economia global. A interdependência que deveria ser um factor de prudência transforma-se, paradoxalmente, num multiplicador de risco.
A tentação de “resolver” Ormuz pela força é tão antiga quanto inútil. A História mostra que, ali, cada intervenção militar cria mais instabilidade do que aquela que pretende eliminar. E, no entanto, continuamos a assistir ao mesmo padrão: demonstrações de poder naval, ameaças veladas, alianças frágeis, discursos inflamados.
É como se o mundo estivesse condenado a repetir a frase de Albuquerque, mas ao contrário: quem tenta dominar Ormuz acaba dominado por ele.
A lição filosófica: o poder que se estreita quando se força
Ormuz revela uma verdade que raramente é dita: o poder que se exerce pela força é sempre um poder curto. A força pode abrir portas, mas não as mantém abertas. Pode impor silêncio, mas não garante estabilidade. Pode conquistar territórios, mas não conquista legitimidade.
A importância de Ormuz nasce da sua fragilidade. O seu valor deriva da sua vulnerabilidade. E é precisamente por isso que qualquer tentativa de o dominar pela violência está condenada ao fracasso.
O estreito exige inteligência, diplomacia, paciência. Não impulsos bélicos. Exige visão histórica, não cegueira estratégica. Exige prudência, não arrogância.
O aviso da História ou o erro que o mundo insiste em repetir
Mais uma vez, a História avisa. Mais uma vez, o mundo não escuta. Mas Ormuz continua ali, imóvel e implacável, como um espelho onde cada potência vê o reflexo da sua própria ilusão de controlo.
Se Portugal tem algo a recordar ao mundo, não por nostalgia, mas por experiência, é isto: Ormuz não é um troféu. É um teste. E os impérios que tentaram vencê-lo acabaram derrotados pela própria ambição.
Talvez seja tempo de perceber que o verdadeiro poder não está em controlar o estreito, mas em evitar que ele se torne o epicentro de mais um erro histórico.
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