O Monte dos Vendavais | Assombra-me, Como Te Amo

“Não sei como explicar, mas certamente tu, tal como toda a gente, deves ter a sensação de que existe , ou pelo menos deveria existir, um outro eu para além daquele que somos… Os meus maiores sofrimentos neste mundo foram os sofrimentos de Heathcliff, e acompanhei cada um deles desde o início. É ele quem me mantém viva. Se tudo o resto desaparecesse e ele permanecesse, eu continuaria, ainda assim, a existir. Mas se tudo o resto permanecesse e ele fosse aniquilado, o universo tornar-se-ia para mim algo completamente estranho, como se eu deixasse de lhe pertencer. O meu amor por Linton é como a folhagem dos bosques: sei que o tempo o transformará, tal como o inverno transforma as árvores. Mas o meu amor por Heathcliff é como as rochas eternas sob a terra: pode não ser belo à superfície, mas por ser indispensável. ” Emily Jane Brontë 

Poucos livros conseguiram transformar a paisagem num estado emocional como Wuthering Heights. O vento, a chuva, a terra húmida, os campos vazios das charnecas inglesas nunca funcionam apenas como cenário. Em Emily Brontë, autora da obra, a natureza não acompanha as personagens. Absorve-as a cada página dobrada. E talvez seja por isso que cada adaptação deste livro carregue sempre um risco inevitável: o de tentar explicar aquilo que nasceu precisamente para permanecer indomável.

Emerald Fennell compreende esse risco e decide não o suavizar. Em vez de transformar O Monte dos Vendavais numa história de época elegante ou excessivamente estilizada, aproxima-o da matéria física e emocional do romance original. Há menos romantização visual e mais presença sensorial: pele, vento, barro, respiração, silêncio. Fennell filma o amor não como fantasia estética, mas como força instável, quase violenta, profundamente ligada ao território. E é precisamente nessa recusa em domesticar a obra que o filme encontra a sua identidade mais forte.

O mais impressionante é a forma como o filme constrói isso visualmente. A câmara aproxima-se da pele, do barro, da respiração, do vento a bater no rosto. Há uma materialidade constante na imagem, quase táctil, que aproxima o espectador dos corpos e da paisagem sem recorrer ao excesso visual. A sensualidade do filme nasce precisamente daí. Não do erotismo explícito, mas da proximidade física, da tensão silenciosa, da sugestão, da sensação de pertença quase instintiva entre aquelas duas personagens. É um desejo que parece anterior à própria linguagem social.

E é precisamente a sociedade que acaba por destruir essa possibilidade.

Catherine ama Heathcliff, mas nunca consegue imaginá-lo plenamente como escolha legítima. O problema nunca foi a ausência de sentimento. Foi a incapacidade de ultrapassar aquilo que o mundo lhe ensinou sobre posição social, estatuto e futuro. Heathcliff não é apenas o rapaz apaixonado; é também o órfão, o deslocado, aquele que não encaixa na estrutura social onde Catherine aprendeu a sobreviver. O filme segreda-nos com enorme inteligência que muitos amores não falham por falta de intensidade, mas porque a realidade exterior vai lentamente contaminando a forma como olhamos para quem amamos.

Há aqui uma dimensão profundamente contemporânea. Continuamos muitas vezes a confundir amor com compatibilidade social, validação externa ou estabilidade previsível. Continuamos a avaliar relações através daquilo que elas representam no olhar dos outros. Conheço muitas, demasiadas, relações assim. E talvez por isso Wuthering Heights continue a ser tão desconfortavelmente atual.

As interpretações ajudam muito a sustentar essa leitura. Charlotte Mellington (uma promissora estreia a este nível) e Owen Cooper (o miúdo de Adolescência), nas versões mais jovens de Catherine e Heathcliff, possuem uma autenticidade quase indomável, como se ainda existissem antes da aprendizagem completa das convenções sociais. Há entre ambos uma ligação instintiva, selvagem, perfumada pelo vento, pela lama e pela terra húmida das charnecas. Mais tarde, Margot Robbie e Jacob Elordi mantêm essa tensão emocional sem nunca a transformar em dramatização excessiva. Heathcliff torna-se mais fechado, mais silencioso, carregando no corpo a violência da exclusão e da ausência, enquanto Catherine parece viver permanentemente dividida entre aquilo que sente e aquilo que acredita dever desejar. Mesmo separados, continuam a surgir nas diferentes cenas como se pertencessem à mesma matéria emocional.

A música desempenha também um papel decisivo. A banda sonora original foi inteiramente composta e produzida por Charli XCX, que lançou simultaneamente o álbum Wuthering Heights. A escolha poderia parecer improvável, mas acaba por reforçar precisamente aquilo que o filme procura: uma mistura constante entre vulnerabilidade emocional, escuridão e intensidade física. As músicas são mais que meros complementos sonoros, pois prolongam o estado psicológico das personagens, cruzando melancolia, tensão e uma certa fragilidade contemporânea que aproxima o clássico de Emily Brontë do presente, sem o descaracterizar.

E talvez seja essa a maior força do filme.

Perceber que algumas relações não desaparecem verdadeiramente, mesmo quando se tornam impossíveis de habitar. Continuam a existir numa espécie de território intermédio, onde memória, desejo e perda deixam de se distinguir completamente. Heathcliff e Catherine não representam um amor ideal. Representam antes a dificuldade humana em separar identidade e afeto, como se parte daquilo que somos pudesse permanecer presa à presença de outra pessoa muito depois de tudo ter terminado.

É por isso que O Monte dos Vendavais continua a resistir ao tempo. Não porque ofereça uma visão bela do amor, mas porque compreende algo mais inquietante: certas paixões sobrevivem precisamente por nunca terem encontrado forma possível de existir plenamente.

Dito isto, em certos momentos, senti inevitavelmente falta da densidade psicológica, das palavras em forma de lágrima (uma após outra) e da arquitetura emocional do romance de Emily Brontë. O livro continua a possuir uma profundidade interior difícil de traduzir integralmente em filme, sobretudo na forma como mergulha nas contradições, obsessões e ambiguidades das personagens. Algumas camadas acabam aqui mais sugeridas do que plenamente desenvolvidas. Ainda assim, o filme compreende algo essencial: Wuthering Heights (tal como o amor) nunca vive apenas no texto. Vive também na atmosfera.

E é precisamente aí que o conjunto funciona de forma tão eficaz. A imagem granulada, o contraste entre a proximidade física da câmara e planos panorâmicos, o vento constante que quase nos faz aconchegar de frio, e a música de Charli XCX, simultaneamente sombria e vulnerável, acabam por construir uma experiência menos narrativa e mais sensorial, quase hipnótica. O filme talvez, ou melhor, com toda a certeza, não consiga substituir a riqueza do livro, mas torna-se um complemento emocional muito forte da obra, quase como uma forma diferente de habitar aquele universo.

E talvez seja precisamente essa a relação mais interessante entre ambos. O livro permanece como corpo, profundidade e matéria original; o filme surge como a sua assombração, não uma cópia, mas uma presença que regressa para nos lembrar daquilo que continua vivo dentro dele. Como Heathcliff a ouvir Catherine no vento, esta adaptação parece existir menos para substituir a obra de Emily Brontë do que para continuar a ecoá-la, de forma inquieta, imperfeita, selvagem e persistente.

Pra finalizar um apontamento mais pessoal. Nunca Margot Robbie me pareceu tão verdadeiramente bonita como neste filme. Não numa beleza construída para ser admirada à distância, cuidadosamente iluminada ou coreografada para impressionar, mas numa presença constantemente atravessada pela fragilidade, pela inquietação e pela sensação de não pertencer inteiramente ao mundo onde vive. Como se o próprio filme compreendesse que certas pessoas se tornam mais intensas precisamente quando deixam de tentar parecer perfeitas.


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