“Afinidade é um dos poucos sentimentos que resistem ao tempo e ao depois. Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afecto no exacto ponto em que foi interrompido. É uma vitória do adivinhado sobre o real. Do subjectivo sobre o objectivo. Do permanente sobre o passageiro. Do profundo sobre o superficial.”Artur da Távola
Sejamos sinceros, ao falarmos da Noval, pensamos logo nos seus maravilhosos e únicos vinhos do Porto. Mas como vão perceber mais à frente, a Noval é muito mais que isso. A sua história é bastante antiga, sendo que o nome Quinta do Noval aparece pela primeira vez em registos no ano de 1715. Quase dois séculos depois (1894), António José da Silva, comerciante de Vila Nova de Gaia adquire a Quinta depois de esta ter sido devastada pela filoxera, com a intenção de a reestruturar e replantar as vinhas da propriedade.
Luiz Vasconcelos Porto, genro de António José da Silva, foi o autor de um vasto conjunto de inovações, transformando os antigos socalcos estreitos em socalcos mais largos, que, hoje em dia, permanecem como característica distintiva da Noval, com as suas escadas caiadas de branco. Estes socalcos permitem uma utilização mais eficiente do solo e uma melhor exposição solar.
A Quinta do Noval ganhou reputação internacional com a declaração do Quinta do Noval Porto Vintage 1931 e o Quinta do Noval Nacional Porto Vintage 1931, que são provavelmente os Vinhos do Porto que mais entusiasmo causaram durante o século XX.
Nesse ano, devido à recessão mundial e à enorme produção e distribuição do Vintage de 1927, a maioria dos produtores não declararam Vintage. O sucesso obtido estabeleceu a Quinta do Noval entre os grandes nomes do vinho do Porto Vintage no mercado Inglês e norte-americano, uma posição de liderança em termos de reputação, que ainda hoje mantém.
As diferenças subtis de orientação, clima e solo das várias parcelas desta extensa vinha são as mais valias que proporcionam aos vinhos da Noval a complexidade e profundidade que lhes são únicas, quer estejamos a falar dos vinhos do Porto ou dos vinhos tintos e brancos não fortificados.
Nos anos 90, uma centena de hectares da propriedade foram replantados, adaptando os métodos de poda às necessidades de cada parcela. Actualmente, a Noval possui uvas de elevada qualidade (totalmente classificadas com letra A), que, por um lado, garantem a excelência dos vinhos do Porto da Quinta do Noval e, por outro, a produção dos vinhos do Douro desde 2004.
É sobre esses vinhos do Douro, que vivem na sombra dos multipremiados vinhos do Porto que vos vou falar hoje, começando por um dos vinhos que mais me surpreendeu nestes tempos de quarentena: o Cedro do Noval Branco 2019 (15€, 91 pts.).
De cor dourada clara cristalina, combina na perfeição notas minerais (xisto molhado), fruta (toranja, maçã perfumada e pêssego) e aromas florais (flor de laranjeira).
Surgem em segundo plano leves apontamentos a baunilha que tornam o vinho mais complexo e largo. Na boca é muito fresco, ligeiramente untuoso, longo e com bom volume.
Combinou na perfeição com a untuosidade e notas vegetais da Sopa de sapateira (esta tornou-se na minha sopa favorita, pena é a trabalheira que dá a confeccionar ;)).
Para acompanhar os tintos (Cedro do Noval e Noval Reserva) escolhi Lombo de porco, gelado de beterraba, legumes baby, compota de tomate e funcho.
O Quinta do Noval Reserva 2017 (51€, 94 pts.) no copo é rubi muito denso, no nariz é intenso com groselha, framboesas, ameixa preta e pimenta preta. Exibe ainda uma mineralidade (xisto partido) muito agradável, uma tosta bem integrada e chocolate preto. Na boca passeia-se com taninos deliciosamente saborosos, finesse, potência e estrutura. Um vinho enorme que tem tudo para crescer em garrafa.
O Cedro do Noval Tinto 2017 (14€, 90 pts.) com uma cor rubi escura (não tão densa quanto a do Reserva), tem um nariz muito interessante com pimenta preta, chocolate e ameixa preta. No palato proporciona um final aromático, ligeiramente fumado, fresco e muito rico.
Estes DOC Quinta do Noval são vinhos imperiais, belos para todos os sentidos, vestidos em tons carregados e sedutores, perfumados com flores e impulsionadores de sonhos: a tal poesia engarrafada, que por vezes ouvimos. Vinhos com uma afinidade enorme com o terroir, com um pedaço de terra capaz de produzir vinhos maravilhosos, que carregam, com orgulho, o carácter da colheita e o legado do lugar de onde provêm.
Vinhos com capacidade para resistir ao tempo e ao depois, e que apesar da maturação que atingem (ou não estivessem no Douro) são vinhos com uma frescura, elegância e finesse impressionantes, que os fazem ter uma insustentável leveza no momento da prova. Vivem na sombra dos Porto, mas já dizia Lincoln: o carácter é como uma árvore mas a reputação … é a sua sombra.
Sopa de sapateira
-Cozer a sapateira em água, sal e uma malagueta (filtrem e reservem a água da cozedura). Retirar a carne da sapateira das pinças e patas juntamente com a barriga (partes acastanhada e laranja) e reservem. Retirem as bolsas e guelras e deitem-nas fora;
-Num tacho grande aqueçam azeite, juntem o alho partido em pedaços pequenos, cebola, cenoura e aipo e deixem cozinhar durante 10 minutos;
-Juntem a carne da sapateira das pinças e patas juntamente com a barriga (partes acastanhada e laranja), partes da concha (os pedaços maiores para que depois possam ser facilmente removidos), polpa de tomate, brandy, e acrescentem água da cozedura até perfazer 800 mL de volume, Deixem ferver por 10 minutos;
-Acrescentem manjericão, estragão e salsa a gosto e cozinhem por mais 5 minutos;
-Retirem a casca da sapateira e passem tudo por uma varinha mágica;
-Acrescentem 200 mL de natas e mexam. Acrescentem um pouco mais de brandy já com o lume desligado.
Lombo de porco, gelado de beterraba, legumes baby, compota de tomate e funcho
-Cozam as beterrabas já descascadas em águal e sal (reservem uma para levarem ao forno). Triturem-nas e juntem um pouco de ginja, açúcar mascavado, natas magras, sal e sumo de um limão e cozinhem por 2 minutos. Levem ao congelador para usarem mais tarde (necessita de pelo menos 4 horas antes de ser servido);
-Levem ao forno rodelas da beterraba cozida, talinhos de funcho e cenouras baby (20 minutos a 180ºC);
– Num tacho coloquem os tomates previamente cozidos e sem casca, açúcar e um pau de canela. Mexam e deixem cozinhar em lume moderado durante 1 hora. No final triturem o tomate, juntem sumo de um limão e um pouco de Porto Ruby;
-Grelhem o lombo de porco em azeite, sal, pimenta, louro, pimentão e uma estrela de anis.
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