“Tu podes adiar, mas o tempo não o fará.” Benjamin Franklin

Chamam-lhe mês da prevenção do cancro colorretal. A expressão parece administrativa, quase protocolar. Mas por trás da palavra “prevenção” está algo profundamente humano: a consciência de que o tempo não é garantido.
A literatura sempre soube isto antes da medicina o medir.
Os gregos distinguiam chrónos de kairós. O primeiro é o tempo que passa, sucessivo, quase indiferente. O segundo é o tempo oportuno, o momento certo. A diferença entre ambos pode ser decisiva. A prevenção pertence ao domínio do kairós: não é apenas o tempo que decorre, é o momento em que decidimos agir.
O cancro colorretal é uma das principais causas de morte em Portugal. A frase é estatística. Fria. Impessoal. Mas cada número é um nome, uma família, um quotidiano suspenso ou, felizmente, reorientado.
A minha história começou em novembro de 2024.
Detetei sangue nas fezes. Não havia dor. Não havia fraqueza. Apenas um sinal muito discreto. Fui às urgências. Disseram-me que deveria ser uma gastrite. Algo comum. Algo benigno.
Mas a inquietação não desapareceu.
Pedi uma segunda opinião.
Depois uma terceira.
Depois uma quarta.
Só no quinto especialista, o Dr. José Ribeiro, em Guimarães, fiz uma colonoscopia. Foi detetado um pólipo que parecia benigno. Uma semana depois, fui ao hospital para o remover. Mais uma vez disseram-me que deveria ser benigno.
No dia 26 de dezembro de 2025, um dia depois do Natal, chegou o diagnóstico.
Adenocarcinoma.
Há palavras que alteram o eixo da vida.
Para não arriscar, a equipa que me acompanhava decidiu fazer cirurgia. Foi removida uma parte do sigmoide. Nessa altura ainda não se sabia se seria necessário tratamento complementar. Dependendo da análise da peça retirada, havia cerca de 20% de probabilidade de precisar de quimioterapia.
Foram dias de suspensão.
Felizmente, os resultados chegaram: estava numa fase muito precoce. Não foi necessária quimioterapia.
Mas mesmo quando a medicina diz “precoce”, a vida já mudou. Vive-se com um novo calendário interior. Há um horizonte de cinco anos de vigilância. Exames regulares. Esperas. Cada resultado traz consigo um silêncio particular que só quem passa por ele compreende.
E é nesse silêncio que se percebe outra coisa essencial.
Ninguém atravessa estes momentos sozinho, mesmo quando acredita que o faz.
Nesta fase tive o apoio de amigos e familiares que, cada um à sua maneira, seguraram partes invisíveis do processo. Mensagens discretas. Conversas que desviavam o pensamento. Presenças que não exigiam explicação.
E, no centro de tudo, a Clarisse.
Há pessoas que são porto. Não fazem ruído, não dramatizam, não transformam a fragilidade em espetáculo. Apenas permanecem. A serenidade dela foi mais forte do que qualquer exame. O equilíbrio dela foi mais sólido do que qualquer relatório clínico. Em momentos de incerteza, há quem ofereça palavras. E há quem ofereça chão e isso também é medicina.
Ao longo deste percurso conheci também profissionais extraordinários. Enfermeiros, médicos, auxiliares, profissionais cuja competência técnica é acompanhada por uma humanidade rara. Passei por uma UCI onde fui tratado com um cuidado que não se esquece. Num momento de fragilidade absoluta, encontrei rigor, serenidade e empatia.
Conheci também o cirurgião que me operou, o Dr. Pedro Leão. Ainda hoje, passado um ano, responde quase imediatamente às mensagens e aos telefonemas quando alguma alteração no corpo reacende inquietações. Essa disponibilidade não é um detalhe. É um gesto que reconstrói confiança.
Percebi, nesse caminho, que uma das coisas verdadeiramente boas que este país conseguiu construir foi uma rede de saúde, pública e privada, que funciona. Com os seus problemas, mas que na esmagadora maioria das vezes funciona. Precisei de ambas. E encontrei, em ambas, profissionalismo exemplar.
Num tempo em que tantas vezes nos habituamos a sublinhar falhas, é justo reconhecer o que funciona.
Sêneca escreveu que o problema não é que tenhamos pouco tempo, mas que perdemos boa parte dele. Talvez a verdadeira maturidade esteja em usar o tempo com consciência, não com medo, mas com lucidez.
O mais inquietante é que, no meu caso, não havia dor. O corpo não gritou. Apenas murmurou.
E é isso que torna o cancro colorretal particularmente perigoso: a sua capacidade de crescer no silêncio.
Depois do meu diagnóstico, falei. Insisti. Chateei amigos e familiares. Seis pessoas próximas fizeram colonoscopia. Três tinham pólipos numa fase muito inicial. Foram removidos.
Evitaram males futuros.
Escrevo isto não para alarmar, mas para tranquilizar.
Quando detetado cedo, o cancro colorretal é altamente tratável. A prevenção não é um slogan. É um gesto concreto.
A história mostra-nos que as grandes mudanças civilizacionais raramente resultam de heroísmos individuais. Resultam de decisões repetidas: vacinar, higienizar, rastrear. A saúde pública é, no fundo, uma ética coletiva.
Vivemos numa cultura que reage ao espetáculo, mas desvaloriza o silencioso. O cancro colorretal é silencioso. E talvez por isso exija maturidade.
A prevenção não é dramática. Não é épica. É banal. E é precisamente nessa banalidade que reside a sua força.
Eu tive sorte. Mas a sorte, neste caso, teve um nome: insistência. E teve também rostos concretos: médicos, enfermeiros e auxiliares que transformaram o medo em processo, e o processo em cuidado.
Se tem idade para rastreio, faça-o.
Se tem sintomas, não adie.
Se tem receio, fale sobre ele.
Não escrevo para assustar.
Escrevo porque aprendi, no corpo, aquilo que os filósofos já sabiam: o tempo não é infinito.
Mas, quando reconhecemos o momento certo para agir, pode ser suficiente.
Sou Vitoriano ferrenho mas neste mês visto-me de azul 😛
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