«Porque vai ser bela.» Tom Builder em Os Pilares da Terra, Ken Follett

Os homens nunca aceitaram muito bem a ideia de desaparecer.
Por isso tiveram filhos, escreveram livros, pintaram retratos, gravaram nomes em pedra e levantaram monumentos. Os faraós construíram pirâmides para negociar com a eternidade, os imperadores romanos deixaram arcos onde a vitória pudesse sobreviver aos vencedores, os reis europeus procuraram perpetuar-se em linhagens, brasões e túmulos. Vista a determinada distância, uma parte considerável da civilização parece uma longa e engenhosa discussão com a morte.
Mas poucas formas de a contrariar serão tão belas como começar aquilo que sabemos não poder terminar.
Durante séculos, foi assim que se construíram catedrais. Um homem podia dedicar a vida a uma torre cuja sombra nunca sentiria. Talhava uma pedra, colocava-a no lugar e confiava à geração seguinte a continuação do trabalho. Mudavam os pedreiros, os mestres, os bispos e os reis. O edifício crescia lentamente em direção a um céu que dispunha de muito mais tempo do que aqueles que tentavam alcançá-lo.
Construir assim exigia fé. Em Deus, certamente. Mas, para alguns, sobretudo nos outros.
Era preciso confiar que outra mão acertaria no prego, que alguém compreenderia o desenho, que pessoas ainda por nascer dariam continuidade a uma obra iniciada por quem nunca chegariam a conhecer.
Uma civilização também pode ser isso: uma obra que ninguém começa do princípio e ninguém chega verdadeiramente a terminar.
Ken Follett percebeu que a melhor maneira de contar a construção de uma catedral não seria escrever sobre pedras. Seria escrever sobre pessoas.

Quando Os Pilares da Terra chegou às livrarias, em 1989, Follett era conhecido sobretudo pelos thrillers. Escrever centenas de páginas sobre uma catedral na Inglaterra medieval não parecia propriamente uma receita para prender os leitores. Pedreiras, argamassa, arcos, abóbadas, mercados, lã, pontes, impostos, mosteiros e disputas eclesiásticas não parecem, à primeira vista, matérias de que se façam páginas impossíveis de largar.
E, no entanto, são. Esse é um dos grandes prodígios de Kingsbridge: Follett consegue fazer-nos precisar de saber se uma viga vai aguentar com o peso.
Um arco deixa de ser apenas arquitetura. Uma ponte pode decidir a prosperidade de uma cidade. A qualidade de uma pedra pode alterar um destino. Um problema de engenharia ganha o suspense de um crime por resolver. E Follett faz algo ainda mais inteligente: não nos entrega imediatamente as respostas.
Dá-nos tempo para pensar.
Percebemos o problema, conhecemos as limitações e, quase sem notar, procuramos a solução juntamente com as personagens. Por vezes chegamos lá antes delas e sentimos aquela pequena vaidade de quem acredita que conseguiria sobreviver alguns dias na Idade Média. Noutras, percebemos rapidamente que seria prudente não largarmos o século XXI.
Tornamo-nos uma espécie de aprendizes clandestinos de Kingsbridge.
E aprendemos muito.
Porque a catedral é a primeira porta. A História é a saída.
Entramos pela pedra e, quando damos por isso, estamos a passear por ela.
Em Os Pilares da Terra, tudo converge para a catedral: arquitetura, fé, poder, ambição, amor e engenho. Depois, Follett abre progressivamente o horizonte. Mundo Sem Fim conduz-nos à medicina, à Peste Negra e à Guerra dos Cem Anos. O Crepúsculo e a Aurora recua às origens de Kingsbridge, a um mundo mais brutal, quando aquilo que julgávamos conhecer ainda precisava de nascer. Uma Coluna de Fogo rasga as fronteiras da cidade e leva-nos à Europa das guerras religiosas, da espionagem e do confronto entre católicos e protestantes. Em A Armadura da Luz, muda até o som do mundo: aos golpes sobre a pedra sucede o ruído das máquinas, da industrialização, da revolta dos trabalhadores e das Guerras Napoleónicas.
Começámos a olhar para uma catedral. Quando levantamos os olhos das últimas páginas, atravessámos séculos.
Os caminhos mudaram, mas a pergunta permaneceu: o que acontece quando alguém olha para o mundo tal como ele é e imagina que poderia ser melhor?
Num século, a resposta é um arco. Noutro, uma ponte, uma forma diferente de tratar uma doença, uma ideia religiosa, uma máquina, uma escola, uma nova organização do trabalho ou uma liberdade que a geração anterior nem sequer conseguia conceber.
Do outro lado encontram-se quase sempre aqueles que preferem a imobilidade, sobretudo quando o mundo parado os deixa no lugar certo.
É esse conflito que une verdadeiramente Kingsbridge: conhecimento contra ignorância, experiência contra dogma, liberdade contra poder, invenção contra hábito, futuro contra privilégio. Século após século, alguém ousa imaginar aquilo que ainda não existe e descobre que o impossível, muitas vezes, era apenas o que ninguém tinha conseguido fazer antes.
Follett consegue ainda uma coisa particularmente difícil: ensinar sem parecer que está a ensinar. A História costuma chegar até nós organizada em reis, guerras, tratados, epidemias e revoluções. Em Kingsbridge, também se revela no preço do pão, em quem pode atravessar uma ponte, vender no mercado, aprender a ler, possuir terra ou escolher com quem casar.
E, por vezes, basta um copo.

Ao longo dos livros comecei a divertir-me com uma espécie de indicador económico doméstico. Para perceber como vive uma família, nem sempre precisamos de conhecer o seu património. Entramos em casa e vemos o que se bebe: água, cerveja ou vinho. Um pormenor quase insignificante consegue dizer muito sobre pobreza, conforto e estatuto.
É assim que o passado deixa de ser cenário e ganha respiração.
Porque a História acontece em grande. A vida, quase sempre, acontece em pequeno.
Também existe uma familiaridade curiosa entre os protagonistas. Não são iguais, mas reconhecemo-los. Partilham uma espécie de parentesco intelectual que atravessa os séculos: construtores, comerciantes, artesãos, inventores, curadores, mulheres e homens incapazes de aceitar que “sempre se fez assim” seja argumento suficiente.
Querem compreender, experimentar, amar mais livremente ou simplesmente recusar uma injustiça que os outros aprenderam a considerar inevitável. E cometem, por isso, um dos pecados mais perigosos de qualquer época: perguntar porquê.
Diante deles, Follett coloca vilões que raramente fazem questão de esconder a condição. Alguns são cruéis com uma eficácia quase profissional. Outros transformam religião, dinheiro, sexo ou poder em instrumentos de domínio. Poucos escritores conseguem tornar uma injustiça tão irritantemente pessoal.
Em certos momentos, não me apetecia continuar a ler. Apetecia-me entrar no livro.
Avisar alguém. Impedir uma decisão. Desmascarar uma mentira. Chegar alguns minutos mais cedo. Follett domina aquela forma particularmente perversa de suspense em que nós já percebemos o perigo, mas a personagem ainda não.
E aceleramos a leitura com a esperança completamente irracional de que chegar mais depressa à página seguinte possa alterar aquilo que já está escrito.
Também aqui se revela uma das fragilidades da coleção. Depois de tantos séculos em Kingsbridge, comecei a reconhecer a maquinaria: o protagonista engenhoso e progressista, a mulher demasiado capaz para o espaço que a sociedade lhe concede, o poderoso disposto a proteger privilégios, o amor ameaçado, a autoridade que confunde interesse próprio com ordem natural.
Alguns vilões são demasiado vilões. Algumas personagens pensam de forma surpreendentemente moderna para o seu tempo. Certas coincidências ajudam mais do que deviam.
Vemos as engrenagens. O problema é que continuam a funcionar.
Antecipamos a armadilha e voltamos a cair nela. Pressentimos a injustiça e indignamo-nos outra vez. Conhecemos o mecanismo e ele continua a prender-nos.
Poucos defeitos recebem um elogio tão grande.
Follett compreende também aquilo que os manuais facilmente esquecem: as pessoas do passado não sabiam que eram passado.
Não acordavam conscientes de viver a “Idade Média”, a “Reforma Protestante” ou a “Revolução Industrial”. Tinham fome, desejo, ciúmes e medo. Apaixonavam-se, discutiam, riam, bebiam, trabalhavam, faziam sexo, tinham filhos e enterravam quem amavam.
O erotismo devolve-lhes o corpo; o humor, a leveza; a tristeza, tantas vezes narrada com uma delicadeza inesperada, a fragilidade. Antes de serem História, eram simplesmente pessoas a tentar viver.
E, de vez em quando, a História entrava-lhes pela porta sem pedir licença.
Só no fim da coleção percebemos que outra personagem atravessou silenciosamente todos os livros.
O tempo.
Quem durante centenas de páginas ocupou o centro absoluto do nosso mundo acaba reduzido a uma lembrança distante. Desaparecem os amados e os odiados, os poderosos e aqueles que o poder esmagou. O que para uns foi presente torna-se passado para os seguintes, até restarem apenas vestígios.
Kingsbridge, porém, continua.
E nós adquirimos um privilégio estranho: conhecemos aquela cidade com memórias que os seus próprios habitantes já perderam. Sabemos quem percorreu determinadas ruas, quem atravessou aquelas pontes, quem sonhou com aqueles edifícios. Vemos fantasmas onde as personagens de outro século veem apenas pedra.
Foi esta coleção que me deixou uma consequência que nenhuma estatística de vendas consegue medir.
Nunca mais entrei numa catedral da mesma maneira.
Continuo a olhar para a luz dos vitrais, para a ausência aparente dos pilates, para uma rosácea ou para a altura quase impossível de uma nave. Mas agora os olhos demoram-se num arco e procuram perceber onde descarrega o peso. Seguem uma coluna até à abóbada. Reparam num contraforte. Por detrás da beleza, imagino andaimes e roldanas, carpinteiros, ferreiros, pedreiros e mestres construtores.
Onde antes via sobretudo um monumento, descubro também inteligência, esforço e problemas resolvidos.
Ken Follett mudou-me os olhos.
E, quando entro numa catedral que não conheço, são sobretudo dois nomes que regressam.
Tom Builder e Merthin.

Vou sentir falta deles…
Separados por cerca de dois séculos, sempre reconheci num qualquer coisa do outro. Tom olha para um terreno e vê aquilo que ainda não está lá. Merthin recebe um mundo já construído e pergunta como poderia melhorá-lo. Um tem a obstinação do construtor, o outro, a inquietação do inventor. Ambos observam, calculam, experimentam, falham e recomeçam. Mais do que erguer edifícios, possuem a rara capacidade de imaginar possibilidades onde os outros veem apenas limites.
E tornaram-se estranhamente familiares.
Muitas vezes peguei num destes livros com a mesma vontade com que se vai ao encontro de um amigo. Não apenas para descobrir o que aconteceria a seguir, mas para regressar àquela companhia, acompanhá-los mais um pouco, ouvi-los pensar, vê-los errar, amar, perder, inventar e recomeçar. Durante algumas páginas, Kingsbridge deixava de ser uma cidade imaginada e tornava-se um lugar onde eu conhecia gente.
Tom e Merthin ficaram acima de todos os outros.
Sei que voltarei a encontrá-los quando entrar noutra catedral. Não porque alguma vez tenham caminhado por aquelas naves, mas porque passaram a fazer parte da maneira como as vejo.
Tom estará algures entre o terreno e o edifício, a sonhar com aquilo que ainda não existe.
Merthin, entre o edifício e o futuro, a pensar como fazê-lo melhor. Estou certo que também noutras urgências, menos sagradas, de uma torre demasiado tempo erguida à espera da sua rosácea.
Estes dois, nunca existiram. E, no entanto, passei tantas horas com eles que essa diferença deixou de ser assim tão importante.
Depois de tantos séculos em Kingsbridge, para mim, sobrou uma lição: o mundo sempre avançou quando alguém pensava melhor, questionava o estabelecido e conseguia ver mais longe. Os inteligentes construíam, inventavam e acabavam por conduzir o futuro. Olho para o presente e pergunto-me se continuamos a navegar na mesma corrente de Kingsbridge. Valter Hugo Mãe parece ter-me dado uma resposta no título do seu último livro: O Século dos Imbecis.
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