Joanesburgo | Uma Longa Caminhada

“Não há nada como regressar a um lugar que está igual para descobrir o quanto a gente mudou.” Nelson Mandela

Foi ao som de um hino que Joanesburgo deixou de caber naquilo que vos vou contar.

No Clubhouse da Steyn City, entre uma mesa farta, um jogo dos Springboks, um belo Sauvignon Blanc sul africano, e a atenção suspensa de todos os que ali estavam, começámos a ouvir. Era dia 18 de julho, aniversário de Madiba, conhecido entre nós por Nelson Mandela. E, quando o hino sul-africano se levantou na sala, não parecia abraçar apenas um campo de râguebi, uma bandeira ou uma cerimónia. Trazia consigo uma história demasiado grande para se ouvir sem que alguma coisa ecoasse por dentro.

Era a nossa última noite em Joanesburgo. Na manhã seguinte, partiríamos para o Kruger, à procura daquela África que se instala cedo na imaginação de quem cresce a olhar para os documentários de vida selvagem: a savana aberta, os elefantes em silêncio, os leões deitados à sombra, a espera quase infantil de encontrar um leopardo entre as árvores. Mas, antes da viagem mudar de escala e de linguagem, aquele hino reunia tudo o que os dias anteriores nos tinham começado a ensinar.

Esse cântico chegava no fim da nossa estadia na maior cidade e centro económico da África do Sul. E talvez por isso tenha ficado.

Mandela escreveu sobre uma longa caminhada rumo à liberdade. A expressão tornou-se tão conhecida que corre o risco de se gastar. Repetimo-la em discursos, em notícias, em aulas, em aniversários e em momentos de homenagem. Eu também não resisti em a usar no título deste texto. Esquecemos, por vezes, que nasceu de uma vida em que a liberdade nunca foi uma ideia abstrata. Teve o peso de uma cela, de uma família distante, de um país dividido por leis feitas para humilhar, separar e convencer milhões de pessoas de que a sua dignidade podia ser medida pela cor da pele.

Em Joanesburgo, a caminhada de Mandela deixa de ser uma exclamação, para se tornar numa interrogação.

O que acontece a uma sociedade depois de conquistar a liberdade? Como se aprende a viver em comunidade quando o passado ensinou, durante tanto tempo, que o outro era uma ameaça? Como se cura uma cidade cuja geografia ainda revela as cicatrizes das pessoas que foram afastadas, classificadas, empurradas para longe, impedidas de escolher onde morar, trabalhar ou simplesmente caminhar?

Nenhuma resposta cabe num museu, num livro, num jogo de râguebi ou numa fotografia de Mandela sorridente. Mas todas essas coisas ajudam a perceber que a África do Sul não é apenas o país que venceu o apartheid. É o país que continua a viver depois dele. E viver depois de uma ferida desta dimensão não significa esquecê-la. Significa acordar todos os dias dentro de uma história que ainda está a ser escrita.

A nossa chegada ocorreu dias antes antes dessa noite.

Partimos de Lisboa às 21h25 do dia 15 de julho. O voo tinha uma escala no Dubai, esse intervalo luminoso e quase irreal entre dois continentes, onde os aeroportos parecem desenhados para que o corpo perca a noção do tempo. Dorme-se pouco, toma-se café a horas sem nome, olha-se para ecrãs que anunciam destinos impossíveis e, de repente, o mundo muda de idioma, de latitude, de luz.

Chegámos a Joanesburgo às 16h15. O cansaço de uma viagem longa traz sempre consigo uma espécie de vulnerabilidade. Ainda não se conhece a cidade, não se domina o ritmo, não se sabe onde procurar as primeiras referências, não se consegue distinguir o que pertence ao acaso e o que anuncia a natureza do lugar. A chegada a um país novo é também uma negociação silenciosa: o corpo tenta adaptar-se antes da cabeça começar a compreender.

A primeira sensação não foi medo. Foi atenção.

Joanesburgo pede-a. Seria ingénuo fingir que a segurança é uma preocupação inventada por quem vê o país de fora. Ela acompanha os percursos, as horas, os lugares onde se estaciona, as zonas por onde se passa e aquelas por onde não se deve improvisar. Aprende-se depressa que certas liberdades distraídas, tão comuns em muitas cidades europeias, não funcionam aqui da mesma maneira.

Foi por isso que, nas duas cidades mais sensíveis desta viagem; Joanesburgo e, mais tarde, Cape Town; escolhemos a Jarat Tours para nos acompanhar. Procurávamos segurança, naturalmente. Viajávamos em família, com a Bia e o Gui, e queríamos conhecer os lugares sem transformar cada deslocação numa preocupação. Mas depressa percebemos que a escolha nos daria muito mais do que proteção e conforto.

O Moses, nosso motorista e guia nesses dias, deixou de ser alguém que estava ali apenas para nos conduzir de um lugar para outro. Tinha a rara inteligência de saber estar perto sem ocupar espaço. Muitas vezes afastava-se para nos deixar mais à vontade, para que uma visita, uma refeição, uma conversa ou uma fotografia continuassem a ser só nossas. Mas bastava olhar com um pouco mais de atenção para perceber que nunca tinha realmente deixado de estar presente: observava, antecipava, vigiava discretamente e assegurava, sem criar alarme, que estávamos bem.

Foi através dele que conhecemos muito de Joanesburgo. Não apenas as ruas, os lugares certos e os percursos mais seguros, mas também histórias, gestos, contextos e silêncios que uma cidade não entrega a quem se limita a passar por ela. Moses ajudou-nos a ver melhor. E essa é, talvez, a forma mais generosa de guiar alguém.

Fez isso também através das línguas. Moses falava a maioria das línguas da África do Sul e mudava de registo com uma naturalidade que nos deixava fascinados. Entre elas, uma soava-nos particularmente deliciosa, a Zulo, pontuada por estalidos com a língua que pareciam desafiar tudo o que conhecemos da linguagem. Ouvíamo-lo falar e percebíamos que uma língua não serve apenas para cumprimentar, fazer uma compra ou trocar ideias. É uma maneira de entrar num lugar. De dizer, mesmo antes de explicar quem somos: “sei quem és, reconheço a tua casa, somos irmãos, não te vou fazer mal.”

Na África do Sul, onde tantas identidades, memórias e feridas convivem tão perto, essa consciência ganha outra espessura. A língua pode aproximar ou afastar, abrir confiança ou levantar defesa. Pode permitir reconhecer um amigo no meio de desconhecidos ou pressentir que alguém escolheu manter distância. Moses ensinou-nos isso sem nunca o transformar numa lição. Bastava vê-lo cantar, falar com as pessoas, ouvir a mudança de tom, de ritmo e de expressão, para perceber que o seu mapa de Joanesburgo não era feito apenas de ruas, mas sobretudo de vozes.

Para a Bia e o Gui, tornou-se simplesmente um amigo que tiveram durante uns dias. Para nós, ficou como uma das boas memórias de Joanesburgo: alguém que começou por nos proteger e acabou por nos aproximar de uma cidade que, sem ele, teríamos conhecido de maneira muito mais redutora.

Mas seria igualmente injusto deixar que a prudência se transformasse na única lente através da qual se vê Joanesburgo.

Porque, por detrás da atenção que exige, a cidade revelou-nos uma generosidade difícil de antecipar. Foi a disponibilidade de quem nos explicava um local, uma história ou um gesto do quotidiano sem a pressa de quem está apenas a cumprir uma obrigação. Foi a facilidade com que as crianças eram recebidas. Foi a maneira como as conversas se prolongavam porque alguém queria genuinamente saber de onde vínhamos, o que procurávamos, como estava a ser a nossa viagem. Foi a hospitalidade sem encenação, mais próxima de uma forma de estar do que de uma estratégia para impressionar visitantes.

Foi também a luz.

Joanesburgo tem pores do sol que parecem imunes ao tempo. O céu abre-se sobre o planalto, toca a terra com tons quentes e cria uma distância quase teatral entre os últimos ruídos do dia e a chegada da noite. Não se trata apenas de beleza. Um pôr do sol pode ser bonito em qualquer lugar, ali, parecia devolver escala às coisas. Depois de um dia cheio de estradas, histórias, alertas e descobertas, o horizonte lembrava-nos que o mundo é sempre maior do que aquilo que nos inquieta.

A Steyn City foi o nosso primeiro ninho dentro desse mundo novo.

Não funcionou apenas como hotel. Funcionou como uma casa provisória: uma expressão estranha, mas talvez a mais justa para descrever o que procuramos quando viajamos em família. Uma casa provisória não tenta substituir a que deixámos em Portugal. Dá-nos, por alguns dias, a liberdade de pousar as malas, encontrar um ritmo, acordar sem a sensação de que cada hora tem de ser aproveitada como uma prova de eficiência turística. Permite que as crianças deixem de ser apenas viajantes e passem a habitar a viagem.

A Steyn City oferece essa possibilidade com uma ambição pouco habitual. O hotel, criado em parceria com a Saxon, não tenta reproduzir a ideia clássica de alojamento urbano. Vive dentro de uma propriedade que parece pensar a cidade como experiência quotidiana: espaço, verde, percursos, restauração, desporto, lagoa, famílias, pessoas a viverem o seu próprio ritmo. A escala é ampla, mas não se impõe através da ostentação. O conforto aparece mais como confiança do que como predicado.

Foi importante chegar ali depois de tantas horas de voo. Abertura, silêncio, espaço para respirar e tempo para recuperar não são detalhes menores quando se entra numa cidade tão intensa. A suíte com dois quartos permitiu-nos essa normalidade rara: cada um tinha o seu espaço, as crianças podiam descansar sem que a viagem se transformasse numa sucessão de quartos de hotel, e nós podíamos voltar a conversar sobre o dia sem a ansiedade de ainda precisar de decidir tudo para a manhã seguinte.

A qualidade de um hotel também se mede muitas vezes pelo que deixa de exigir aos seus hóspedes. A Steyn City não nos obrigou a estar sempre em modo de consumo. Não pediu que estivéssemos permanentemente vestidos para uma fotografia, sentados à mesa como se cada refeição fosse uma cerimónia ou a escolher entre conforto e vida em família. Deu-nos margem para existir. E, numa viagem com a Bia e o Gui, isso é o maior luxo.

A gastronomia acompanhou essa ideia. O Guild funcionou como extensão natural dos dias: pequenos-almoços sem pressa, almoços leves depois das visitas e jantares que devolviam à família um ritmo mais tranquilo. Entre o sushi, muito bem executado, e uma carta de vinhos sul-africanos cuidadosamente escolhida, destacaram-se os pratos que melhor deixavam o país chegar à mesa: a massa de marisco com linefish, camarão, lula e mexilhões; o braised oxtail com creamy samp, reconfortante e profundamente sul-africano; e, no fim, o inevitável malva pudding com creme inglês de Amarula. A Ntombifuthi tornou tudo ainda melhor. Amável, atenta e certeira nas sugestões de vinho, fazia do serviço uma forma discreta de hospitalidade.

O Clubhouse pertencia a outra atmosfera. Mais aberto, mais social, com o campo de golfe a alargar a vista e a sensação de que ali se encontrava uma comunidade, não apenas pessoas em trânsito. Não sou nem jogador nem apreciador de golfe, ainda assim, é fácil ser esmagado pela beleza e dimensão daqueles campos. É também o lugar certo para um jantar demorado, para ver famílias, grupos de amigos, jogadores, crianças e hóspedes a partilharem o mesmo espaço, sem que o hotel se transformasse numa bolha desligada do mundo à volta.

Também a ementa fazia essa ponte. Havia sabores que não precisavam de se anunciar como locais para o serem: os fígados de frango com molho peri-peri e dombolo; a língua de vaca com chakalaka; o kingklip grelhado; o boerewors, acompanhado de pap e daquele picante vegetal que parece conter, numa só colher, fogo, cor e conversa. No copo, um 21 Gables Sauvignon Blanc, de Stellenbosch, lembrava-nos que o Cabo já estava presente naquela primeira noite, muito antes de chegarmos até ele.

E, no fim, o lemon posset, com a sua acidez limpa, o curd de limão, pistácio e framboesa, trouxe à mesa o contraponto certo para uma refeição de sabores mais fundos: leve, fresco e preciso. Graças ao convite amável da equipa de Marketing, sentámo-nos na mesa mais desejada para ver os Springboks. À nossa volta, a sala foi-se enchendo. No ecrã, o jogo começou a prender todos os olhares. E foi assim, entre vinho, comida, crianças, vozes e râguebi, que a noite se aproximou do seu momento mais inesperado e com o qual iniciei este texto.

No dia seguinte, dia 17, o Apartheid Museum obrigou-nos a mudar de tom. Não se visita um museu destes como se visita uma coleção de arte ou uma casa histórica. A visita pede tempo, disponibilidade e alguma coragem para não fugir depressa ao desconforto. O apartheid não foi uma abstração moral, nem uma espécie de mal antigo e distante que se possa resumir em duas datas e alguns nomes. Foi um sistema minucioso, burocrático e brutal, desenhado para entrar na vida das pessoas desde o nascimento: no lugar onde podiam viver, na escola que podiam frequentar, no trabalho a que podiam aspirar, na rua por onde podiam passar, nos amores que podiam assumir.

A violência mais assustadora de certos regimes está precisamente na sua capacidade de transformar o absurdo em rotina. Fazer com que uma injustiça pareça administrativa. Fazer com que uma humilhação pareça uma regra. Fazer com que alguém se acostume a pedir autorização para existir.

Saímos do museu com menos certezas e com (muito) mais silêncio.

Depois seguimos para Soweto. Seria fácil descrevê-lo “apenas” como o bairro de Mandela, como um lugar de resistência, como um símbolo da luta contra o apartheid. Tudo isso é verdade. Mas tudo isso não chega. Soweto é também vida quotidiana. São casas, escolas, comércio, crianças a regressar, música, trânsito, conversas, vizinhos, pessoas que não vivem dentro de uma página de História. São pessoas, para quem a melanina, que não deveria medir rigorosamente nada, ainda hoje continua demasiadas vezes a significar salário a menos, património a menos, acesso a menos, escolha a menos.

Viajar por lugares marcados por tamanho sofrimento e revolta exige algum cuidado moral. O visitante corre sempre o risco de procurar uma emoção pronta, de transformar a dor dos outros em decoração da sua própria viagem. Soweto merece mais do que isso. Merece escuta. Merece a humildade de perceber que os lugares não existem para confirmar as imagens que trazemos de casa. Existem para as contrariar, aprofundar ou desmontar.

Foi essa a primeira grande lição de Joanesburgo: uma cidade não se vê de uma vez. Vê-se por camadas. Pela História que explica as suas fissuras, pelas histórias das pessoas que a habitam, pelos espaços de conforto que permitem respirar, pelas zonas onde a prudência se torna necessária, pelos pores do sol que fazem tudo parecer mais vasto, pela conversa que nos lembra que continuamos a ser hóspedes.

No dia 18, saímos de Joanesburgo em direção a um lugar que obriga qualquer pessoa a perceber que a viagem não começou egoistamente consigo.

Começámos pelas Sterkfontein Caves, onde a paisagem se fecha, a luz diminui e o mundo exterior perde depressa a sua autoridade. A pedra obriga o corpo a abrandar. Desce-se por passagens estreitas, sente-se a humidade no ar, vê-se como a água desenhou durante milhões de anos uma arquitectura sem arquitecto. Não são grutas bonitas no sentido superficial da palavra. São mais do que isso: são arquivos.

Nelas, a terra conservou aquilo que, à superfície, teria desaparecido. Os seus sedimentos guardaram ossos, dentes, vestígios de animais, ferramentas e camadas sucessivas de tempo. Cada fragmento encontrado nas Sterkfontein Caves não responde apenas à pergunta “quem viveu aqui?”. Ajuda a reconstruir como vivíamos, em que ambientes sobrevivíamos, que outras espécies existiam connosco e que caminhos a evolução chegou a experimentar antes de nos trazer até ao presente.

Convém distinguir os três nomes, porque contam a mesma história em escalas diferentes. O Cradle of Humankind é o território e o conjunto de sítios paleoantropológicos classificados pela UNESCO: uma vasta paisagem de grutas e depósitos fossilíferos onde se conserva uma das mais importantes memórias da evolução humana. As Sterkfontein Caves são um desses sítios, talvez o mais célebre: as grutas ancestrais onde descemos e onde foram feitas algumas das descobertas que mudaram a forma como o mundo olha para as nossas origens. Maropeng é o centro de visitantes e interpretação do Cradle of Humankind, o lugar onde a ciência organiza aquilo que as grutas nos fazem sentir antes de o conseguirmos compreender.

As Sterkfontein Caves deram-nos Mrs Ples, um dos mais famosos crânios de Australopithecus africanus, e Little Foot, um esqueleto quase completo com cerca de 3,67 milhões de anos. Deram-nos, sobretudo, a prova de que a evolução não foi uma escada simples, com cada espécie a subir degrau a degrau até chegar triunfalmente ao ser humano moderno. Foi uma história muito mais fascinante: feita de ramos, adaptações, tentativas, parentes próximos que desapareceram e vidas que se interromperam sem saberem que, milhões de anos depois, alguém desceria às mesmas cavernas para lhes tentar reconstituir o rosto.

É difícil estar ali sem pensar na desproporção entre a nossa pressa e o tempo da pedra. Chegámos de avião, com reservas, horários, máquinas fotográficas e um almoço marcado para depois da visita. Debaixo dos nossos pés, porém, acumulava-se uma história que começou antes de qualquer país, antes de qualquer língua, antes das fronteiras e das divisões que hoje nos parecem tão determinantes. Antes de sermos portugueses, sul-africanos, europeus ou africanos, antes de nos identificarmos pela religião, pela cor, pelo lugar onde nascemos ou pelo lado da História em que julgamos estar, pertencíamos já a uma origem comum.

Depois, seguimos para Maropeng.

À chegada, o guia recebeu-nos com uma pergunta que pareceu simples, mas acabou por se tornar uma das frases mais belas de toda a viagem:

“Bem-vindos a casa. Porque demoraram tanto a chegar?”

Não era uma frase de efeito. Em Maropeng, ganhou uma verdade quase física. O centro de interpretação não procura apenas apresentar fósseis famosos ou transformar milhões de anos numa sucessão de vitrinas. Ajuda-nos a perceber a dimensão do que acabámos de visitar. Dá linguagem ao espanto. Explica por que razão aquelas grutas, aquelas pedras e aqueles ossos fazem deste lugar um dos de maior peso histórico e científico do planeta.

Maropeng significa, em setswana, “regresso ao lugar de origem”. E talvez nenhuma ideia explique melhor o Cradle of Humankind. Não porque cada ser humano tenha começado naquela caverna em específico, nem porque a ciência permita reduzir a origem de todos nós a um ponto no mapa. Mas porque este território guarda uma parte essencial da resposta à pergunta que nos acompanha desde sempre: de onde viemos?

A África não é apenas um continente entre outros na História humana. É o lugar onde a nossa espécie e os seus antepassados mais próximos encontram algumas das suas memórias mais antigas e mais decisivas. As descobertas feitas no Cradle of Humankind ajudaram a afastar definitivamente a antiga ideia de que a humanidade teria nascido longe daqui. Mais importante ainda, lembraram-nos que a nossa origem não pertence a um povo, a uma nação ou a uma identidade. Pertence-nos a todos.

Foi isso que tornou aquela frase do guia tão comovente. “Bem-vindos a casa” não significava que estávamos a entrar num museu dedicado a um passado remoto. Significava que estávamos a regressar a uma história anterior a tudo o que hoje usamos para nos distinguir uns dos outros. As línguas, as bandeiras, as religiões, os medos e até os inimigos que inventamos são recentes quando comparados com a caminhada que nos trouxe até aqui.

Depois das grutas, depois das salas de Maropeng, depois de olhar para os primeiros passos de seres que ainda não sabiam que um dia seríamos nós, a pergunta deixou de ser apenas de onde vínhamos. Tornou-se mais exigente: depois de tanto tempo a chegar até aqui, o que fazemos agora uns com os outros?

Almoçámos já com outra luz sobre as coisas. Depois de milhões de anos comprimidos numa manhã, uma mesa, uma conversa e o regresso à superfície ganharam uma importância diferente. Ao fim da tarde, voltámos à Steyn City, para a última noite em Joanesburgo.

E foi então que chegou o jantar no Clubhouse, o jogo dos Springboks e o hino.

Nada precisou de ser explicado. O dia já tinha feito esse trabalho. Tínhamos começado na pedra, entre sinais remotos da origem humana; regressávamos agora a uma sala cheia de pessoas, vozes, pratos, crianças, desporto e memória.

O hino sul-africano ergueu-se nas suas cinco línguas oficiais. A letra mudava de som, de ritmo e de língua, mas a liberdade continuava a atravessá-la inteira. Não como uma palavra decorativa, nem como uma conquista que se possa dar por concluída, mas como uma exigência. Como uma promessa repetida por vozes diferentes, cada uma trazendo consigo a sua própria história, a sua própria dor e a sua própria maneira de dizer “nós”.

Como vos disse no ínicio, era o aniversário de Mandela. E, naquele Clubhouse a sua longa caminhada deixou de pertencer apenas aos livros, aos museus ou às fotografias que o mundo aprendeu a reconhecer. Ressoou em mim de uma forma que jamais esquecerei. Talvez porque, poucas horas antes, as Sterkfontein Caves e Maropeng nos tinham devolvido uma verdade ainda mais antiga: antes de falarmos línguas diferentes, antes de inventarmos fronteiras, antes de aprendermos a reconhecer um amigo ou a temer um inimigo, já pertencíamos à mesma casa.

A linguagem pode aproximar ou afastar. Pode abrir uma porta, revelar uma pertença, dar-nos a segurança de reconhecer alguém entre desconhecidos. Pode também erguer uma fronteira. Mas, naquela noite, as cinco línguas não separavam ninguém. Pelo contrário: encontravam-se num mesmo hino, como caminhos que finalmente percebem que sempre seguiram em direção ao mesmo lugar.

Talvez seja isso a liberdade: não a ausência de fronteiras, nem a ilusão de que as diferenças desaparecem, mas a possibilidade de ninguém ter de pedir licença para existir dentro delas. A possibilidade de cada voz conservar a sua língua sem deixar de ser ouvida pelas outras. A possibilidade de caminharmos juntos sem que alguém tenha de deixar de ser quem é.

Na manhã seguinte, partiríamos para o Kruger.

Joanesburgo tinha-nos ensinado que somos feitos de memória, de linguagem e de relações. Que uma cidade pode ser difícil sem deixar de ser generosa e que uma mesa partilhada pode dizer tanto como um museu. O Kruger esperava-nos com outra lição: depois de descobrirmos que todos viemos da mesma casa, seria tempo de perceber que ela nunca nos pertenceu por inteiro.

Porque, nesta longa caminhada, todos trazemos nos pés a memória do mesmo primeiro passo, esse mesmo, que nos une.

Recomendações:

  • Steyn City Hotel by Saxon: a nossa casa provisória em Joanesburgo: muito segura, luxuosa e completa, mas sem perder a rara capacidade de fazer uma família sentir que pode simplesmente pousar, respirar e habitar a viagem.
  • Guild: para pequenos-almoços longos, sushi, cozinha cuidada e uma excelente seleção de vinhos sul-africanos.
  • The Clubhouse at Steyn City: para uma refeição mais social, com vista sobre o golfe e o pulsar de uma comunidade.
  • Jarat Tours: a escolha certa para conhecer Joanesburgo e Cape Town com segurança, conforto, luxo e a inteligência local de quem sabe guiar sem nunca invadir a viagem.
  • Apartheid Museum: uma visita indispensável, a fazer sem pressa e com disponibilidade para escutar o que a História ainda exige.
  • Mandela House: em Vilakazi Street, Soweto, a casa onde Mandela viveu. Pequena na escala, enorme na memória: uma visita essencial para dar corpo humano à história que o museu conta.
  • Soweto Tourism: ponto de partida útil para descobrir Soweto com mais contexto, respeito e tempo.
  • Sterkfontein Caves e Maropeng — Cradle of Humankind: duas visitas que devem ser feitas juntas: primeiro a descida à pedra; depois, o regresso à história de todos nós.


Comments

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *