I Swear | Dou-te A Minha Palavra. A Má Também.

«Aquilo que me ouvem gritar é precisamente aquilo em que menos acredito.» John Davidson

Passamos grande parte da vida a acreditar que somos donos do nosso corpo. Talvez porque nunca tenhamos precisado de lhe pedir autorização.

Queremos ficar quietos e ficamos. Queremos permanecer em silêncio e calamo-nos. Escolhemos uma palavra entre milhares e dizemo-la. Raramente pensamos no extraordinário privilégio escondido em gestos tão banais.

Até conhecermos John Davidson.

I Swear, de Kirk Jones, conta a história verdadeira do escocês que começou a desenvolver sintomas de síndrome de Tourette ainda adolescente, numa época em que quase ninguém à sua volta sabia sequer dar um nome ao que lhe estava a acontecer. Antes de se tornar uma das figuras mais importantes na sensibilização para a doença, John foi durante demasiado tempo aquilo que os outros decidiram que ele era: mal-educado, perturbado, agressivo, estranho.

O problema é que John sabia perfeitamente quem era.

Era o corpo que, por vezes, parecia não saber.

E é nessa distância terrível entre aquilo que um homem quer fazer e aquilo que o seu corpo o obriga a fazer que I Swear encontra a sua razão de existir.

Começando, curiosamente, pelo próprio título.

I Swear é daqueles títulos quase impossíveis de traduzir sem perder alguma coisa pelo caminho. To swear significa jurar, mas também praguejar, dizer palavrões. Duas palavras que encerram, por isso, uma pequena genialidade: John pode dizer I swear para garantir que está a falar verdade e, simultaneamente, para nomear aquilo que tantas vezes não consegue evitar fazer.

É difícil transportar este jogo para português. Ainda assim, não deixa de ser curioso como algumas traduções portuguesas recentes de títulos parecem particularmente empenhadas em demonstrar que traduzir palavras é bastante mais fácil do que traduzir ideias. Quem decide algumas delas daria, por si só, matéria para outra crónica.

Aqui, porém, a perda é especialmente irónica: num filme sobre um homem cuja relação com as palavras nem sempre depende da sua vontade, até o título parece dizer mais do que aquilo que escolheu dizer.

Kirk Jones poderia facilmente ter transformado esta história numa daquelas biografias desenhadas desde o primeiro minuto para nos indicar quando devemos sofrer, quando podemos sorrir e em que momento chegarão inevitavelmente as lágrimas. O filme aproxima-se ocasionalmente desse território. A estrutura é relativamente convencional e algumas personagens cumprem funções narrativas bastante reconhecíveis.

Mas I Swear possui uma coisa capaz de tornar quase todas essas reservas secundárias.

Robert Aramayo.

Ainda não sei se chegará à nomeação para o Óscar de Melhor Ator. Existem calendários, campanhas, concorrentes e muitas interpretações que ainda não vi. Sei apenas uma coisa: dos filmes que vi este ano, nenhuma interpretação masculina me impressionou tanto.

O perigo de interpretar alguém com Tourette é enorme. Os tiques, os movimentos involuntários, os sons, a coprolalia e as repetições poderiam facilmente transformar John numa coleção de sintomas. Bastariam alguns minutos de excesso para deixarmos de ver uma pessoa e começarmos a observar um ator a demonstrar-nos o trabalho que fez para representar uma doença.

Aramayo faz exatamente o contrário.

E o mais extraordinário é que não o consegue apenas através daquilo que faz, mas também através daquilo que nos permite ver entre cada gesto involuntário.

Uma contração atravessa-lhe o rosto. O corpo interrompe uma frase. Uma palavra explode precisamente quando o silêncio seria desesperadamente necessário. Tudo possui uma precisão física impressionante, mas nunca parece coreografado. Os tiques parecem acontecer-lhe antes de acontecerem à personagem.

Depois vem aquele instante minúsculo que Aramayo torna devastador. O segundo seguinte. O momento em que John percebe aquilo que acabou de acontecer e procura imediatamente o rosto de quem está à sua frente.

Nesse olhar pode caber vergonha, medo, cansaço, antecipação da rejeição ou o pedido de desculpa que ainda não teve tempo de pronunciar. Outras vezes aparece um sorriso, porque talvez quem passa uma vida a perder momentaneamente o controlo sobre o próprio corpo precise de encontrar alguma forma de recuperar o controlo sobre a maneira como olha para ele.

É aí que a interpretação se torna extraordinária. Não nos tiques, mas nos intervalos entre eles.

Talvez seja também por isso que o humor funciona tão bem. Rimo-nos várias vezes durante I Swear e, nas primeiras, a gargalhada pode trazer consigo um pequeno desconforto. Podemos rir? Deveríamos rir?

A resposta vai surgindo naturalmente: podemos rir com John. Aquilo que não podemos é rir de John.

Parece uma diferença semântica. É uma diferença humana.

Porque a síndrome de Tourette de John não existe num vazio. Cada gesto involuntário encontra imediatamente outra pessoa que precisa de o interpretar. E é nesse espaço, entre aquilo que ele não quis fazer e aquilo que os outros acreditam que ele quis fazer, que nasce grande parte da violência do filme.

Uma palavra torna-se insulto. Um movimento transforma-se em provocação. Um comportamento involuntário passa a ser lido como intenção.

Talvez porque estejamos habituados a uma equação perigosamente simples: vemos o que alguém faz e acreditamos saber quem essa pessoa é.

John Davidson desmonta-a.

E o filme torna-se mais interessante quando percebemos que aprender a viver com Tourette não é apenas uma tarefa de John. É também uma aprendizagem daqueles que decidem permanecer ao lado dele. Não podem silenciar-lhe os tiques nem devolver-lhe o controlo absoluto do corpo. Podem fazer algo talvez mais difícil: aprender a reconhecer o homem quando o sintoma tenta falar primeiro.

E existem momentos em que o filme consegue uma das coisas mais difíceis: faz-nos querer entrar nele. Percebemos o que está prestes a acontecer antes de termos a certeza de que acontecerá, reconhecemos no rosto de alguém um equívoco antes de ele se transformar numa consequência e apetece-nos atravessar o ecrã, chegar primeiro e impedir aquilo que talvez ainda possa ser evitado. Poucas coisas dizem tanto sobre a eficácia de um filme como esta vontade absurda de intervir numa história que sabemos não poder alterar.

É por isso que I Swear nunca precisa verdadeiramente da nossa pena. A pena seria apenas outra maneira de manter John à distância.

O que o filme procura é reconhecimento.

E talvez seja precisamente aí que Robert Aramayo alcance algo muito raro.

Uma interpretação desta natureza poderia ter sido ostensiva. Daquelas que chegam acompanhadas pela consciência permanente de que estamos perante um ator a fazer algo tecnicamente dificílimo. Aramayo começa por nos obrigar a reparar precisamente nisso: na coordenação dos movimentos, na voz, nas interrupções, na violência física de um corpo que parece insurgir-se contra quem o habita.

Durante algum tempo, pensei várias vezes no trabalho extraordinário que Robert Aramayo estava a fazer.

Depois aconteceu algo melhor.

Deixei de pensar nele.

Talvez os Óscares venham a reconhecê-lo. Talvez não. Mas isso pouco importa, porque, se existe uma medida possível para uma interpretação verdadeiramente grande, talvez seja esta: o ator trabalha até conseguir desaparecer.

Robert Aramayo desapareceu.

Ficou John Davidson.

E, entre todos os filmes que vi este ano, nenhum ator me pareceu tão presente precisamente no momento em que deixou de estar lá.


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