Evita | Porque Não Choras por Mim?

“Em vez de governo, tivemos um palco.” Che, Evita, Tim Rice / Andrew Lloyd Webber

Eva Perón morreu aos trinta e três anos, mas há muito que a idade deixara de ser uma medida suficiente para contar a sua vida. Em poucos anos, Eva Duarte atravessou uma distância que não se mede em quilómetros entre Los Toldos e Buenos Aires, mas entre aquilo que o mundo parecia ter reservado para ela e aquilo que decidiu conquistar. Atriz de rádio e cinema, aproximou-se de Juan Domingo Perón, casou com ele e tornou-se primeira dama da Argentina, ocupando um lugar de enorme visibilidade política e social até à sua morte, em 1952.

Mas os factos dizem muito pouco sobre Eva Perón. Talvez porque certas vidas, depois de terminarem, deixam de poder ser contadas apenas pelo que aconteceu. Passam a depender de quem as recorda, de quem as ama, de quem as detesta e, sobretudo, de quem continua a precisar delas. Eva tornou-se Evita precisamente nesse espaço, quando a mulher começou a desaparecer por detrás da personagem e a personagem se tornou maior do que a mulher.

Foi essa fronteira que encontrámos no dia 10 de julho, no Coliseu do Porto. A produção da Yellow Star Company, com encenação de Paulo Sousa Costa, coloca Sofia Escobar no papel de Eva Perón, Diogo Morgado como Che e Diogo de Carvalho como Juan Perón. O musical de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice assume a forma de uma ópera rock praticamente contínua, fazendo de Che uma espécie de consciência crítica que observa, comenta e questiona a ascensão de Eva.

Evita continua a funcionar tão bem porque nunca foi verdadeiramente uma história sobre a Argentina dos anos quarenta. É uma história sobre algo muito mais antigo e, paradoxalmente, muito mais contemporâneo: a necessidade humana de ser visto.

Eva quer chegar a Buenos Aires porque acredita que existe noutro lugar uma versão maior de si própria. Quer ser reconhecida, admirada, desejada. Depois descobre que ser vista não chega. É preciso permanecer na memória de quem olha. É nesse momento que nasce Evita.

Sofia Escobar constrói essa transformação com uma segurança impressionante. A jovem que chega à cidade movida pela ambição vai aprendendo a linguagem dos lugares onde pretende entrar, percebe quem deve conhecer, quando deve aparecer e, sobretudo, como deve aparecer. A voz, naturalmente, é uma das grandes forças da interpretação, mas seria injusto reduzir o trabalho de Sofia Escobar à capacidade vocal. O mais interessante acontece na forma como o corpo, o olhar e o gesto se vão tornando progressivamente mais controlados. Eva deixa de simplesmente existir diante dos outros e começa a representar aquilo que os outros esperam que ela seja.

Os figurinos ajudam a contar essa metamorfose. A simplicidade inicial vai dando lugar à elegância, ao rigor, às joias e ao cabelo cuidadosamente construído que ficou associado à imagem de Eva Perón. Parte desse universo visual culmina nos figurinos concebidos especificamente para Sofia Escobar, numa produção em que o guarda roupa acompanha deliberadamente a ascensão da personagem.

Mas em Evita a roupa nunca é apenas roupa. É armadura.

@ Yellow Star Company

Quanto mais perfeita se torna a imagem exterior, mais difícil é perceber a mulher que existe por baixo dela. E talvez seja esta uma das ideias que tornam o espetáculo inquietantemente atual. Vivemos num tempo em que quase todos carregamos no bolso uma pequena varanda da Casa Rosada. Um lugar a partir do qual escolhemos o enquadramento, a luz, as palavras e a versão de nós próprios que queremos mostrar ao mundo.

Já não precisamos de milhares de pessoas reunidas numa praça. Basta um ecrã.

Mudaram as ferramentas, não mudou inteiramente a vontade de controlar o olhar dos outros.

Talvez por isso seja tão difícil responder à pergunta que atravessa Evita: onde termina a autenticidade e começa a representação? A pergunta parece simples enquanto se aplica a Eva Perón, mas torna-se bastante mais desconfortável quando a devolvemos a nós próprios. Quantas vezes escolhemos uma fotografia porque se parece mais com aquilo que gostaríamos de ser do que com aquilo que somos? Quantas vezes transformamos uma viagem, uma refeição, uma relação ou até um momento de felicidade numa imagem antes de termos verdadeiramente vivido aquilo que queremos mostrar?

Eva percebeu muito antes das redes sociais que a imagem não é apenas consequência do poder. Pode ser uma das suas formas.

É também por isso que Che é indispensável.

Diogo Morgado ocupa o palco como alguém que se recusa a aceitar aquilo que vê sem fazer perguntas. Che não existe apenas para narrar. Existe para introduzir dúvida. Quando Eva seduz, ele desconfia. Quando a multidão acredita, ele interroga. Quando o mito ameaça tornar se absoluto, ele procura a fissura por onde possa voltar a entrar a realidade.

O confronto entre ambos é particularmente interessante porque não precisa de decidir quem tem razão. Eva constrói uma narrativa sobre si própria. Che tenta desmontá la. Entre os dois ficamos nós, obrigados a fazer aquilo que tantas vezes deixamos de fazer quando alguém nos apresenta uma história suficientemente sedutora: pensar.

@ Yellow Star Company

E talvez esteja aí uma das maiores virtudes de Evita. A obra não nos entrega uma Eva Perón simples. A figura histórica permanece controversa, associada simultaneamente à mobilização popular e a políticas sociais do peronismo, mas também às críticas dirigidas ao regime de Juan Perón e à forma como o poder político construiu e utilizou a sua imagem pública. O próprio musical explora essa tensão através do confronto permanente entre Eva e Che.

Diogo Morgado assume essa função com um registo mais duro e irónico, criando o contraponto necessário à intensidade emocional de Sofia Escobar. Não procura competir com Eva pelo centro do palco porque Che pertence, de certa forma, à periferia. É daquele lugar que observa melhor. E há momentos em que gostaríamos até que esse confronto fosse ainda mais incómodo, que a proximidade entre os dois produzisse uma tensão maior, porque é precisamente quando o espetáculo nos obriga a desconfiar daquilo que acabámos de sentir que se torna mais interessante.

Diogo de Carvalho encontra em Juan Perón outro tipo de presença. Mais contida, menos luminosa, quase inevitavelmente secundária perante a força de Eva. A ironia é evidente: Perón possui formalmente o poder, mas é Evita quem ocupa a memória. Um assina, o outro permanece nas fotografias. Um governa, a outra transforma se em imagem.

E nenhuma imagem de Eva Perón se tornou mais poderosa do que aquela varanda.

Quando chega Não Chores por Mim, Argentina, chegamos também ao momento que todos conhecemos antes mesmo de o espetáculo começar. É esse o perigo das canções demasiado famosas: carregam consigo todas as versões que ouvimos antes. Patti LuPone, Elaine Paige, Madonna e tantas outras Evitas entram connosco na sala.

Sofia Escobar consegue fazer o mais difícil. Não tenta vencer essa memória pelo excesso.

Contém.

@ Yellow Star Company

Diante da multidão, Eva parece simultaneamente enorme e vulnerável. É provavelmente o momento em que a distância entre mulher e símbolo se torna mais pequena. Não sabemos se estamos perante a declaração sincera de alguém que acredita profundamente nas suas próprias palavras ou perante a representação perfeita de alguém que aprendeu exatamente aquilo que uma multidão deseja ouvir.

Talvez nem Eva soubesse já distinguir uma coisa da outra.

E talvez nós também não.

Porque representar durante tempo suficiente aquilo que gostaríamos de ser pode acabar por mudar a resposta à pergunta sobre quem realmente somos. A máscara não esconde necessariamente o rosto. Por vezes molda o rosto até já não ser possível separá los.

É aí que a doença introduz no espetáculo uma brutalidade diferente.

Durante quase toda a vida que vemos em palco, Eva luta para controlar a narrativa. Controla a roupa, o gesto, a entrada numa sala, a relação com o público, a transformação de Eva em Evita. Até descobrir que existe sempre alguma coisa que escapa ao nosso domínio.

O corpo.

A mortalidade tem essa indelicadeza. Não se deixa impressionar pela quantidade de pessoas numa praça.

A mulher que aprendera a tornar se maior do que a vida começa então a ficar pequena dentro do próprio corpo. E o contraste é devastador porque percebemos que a imagem pode desafiar quase tudo, menos o tempo.

Ou talvez possa.

Eva Perón morreu. Evita ficou.

Ficou na Argentina, nas fotografias, na memória coletiva, nas discussões em torno do peronismo. Ficou depois nas canções de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber, no West End, na Broadway, no cinema e em cada atriz que voltou a aproximar se daquela varanda. O musical estreou em Londres em 1978 e desde então Eva foi sucessivamente reinterpretada, transformando uma figura histórica argentina numa personagem reconhecida muito para além das fronteiras do país.

Naquela noite, no Porto, foi Sofia Escobar quem voltou a emprestar lhe corpo e voz.

Quando as luzes do Coliseu se acendem e regressamos à rua, Evita deixa connosco uma pergunta que talvez tenha hoje ainda mais sentido do que quando Tim Rice e Andrew Lloyd Webber a levaram ao palco pela primeira vez.

Vivemos rodeados de imagens e aprendemos a desconfiar delas, mas continuamos a apaixonar nos por aquilo que representam. Seguimos pessoas que nunca conhecemos, choramos mortes de estranhos, discutimos figuras públicas como se conhecêssemos aquilo que existe quando as câmaras se desligam. Nunca tivemos acesso a tantas vidas e talvez nunca tenha sido tão difícil saber onde termina uma pessoa e começa a personagem que construímos dela.

Eva Perón percebeu o poder dessa distância.

Evita percebeu algo ainda mais perturbador.

O mito não é construído apenas por quem está na varanda.

Precisa sempre de alguém cá em baixo, a olhar.


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