“As pessoas podem fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e até podem tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podem, nunca, escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração, e com esta, ele penetra nas pessoas, que não lhe podem escapar, caso queiram viver. E é bem para dentro delas que vai o aroma, directamente para o seu coração. E é lá dentro que se distingue, categoricamente, entre atracção e menosprezo, nojo e prazer, amor e ódio. Quem dominar os odores … domina o coração das pessoas.” Patrick Süskind
Quando me perguntam qual o meu livro favorito, não hesito na resposta: O perfume: História de um assassino de Patrick Süskind. Nele é-nos contada a extraordinária história de um homem, que tinha tanto de talentoso como de abominável, de seu nome Jean Baptiste Grenouille.
Esta personagem execrávelmente sedutora vê a luz do dia, pela primeira vez, como uma criança bastarda, nascida num mercado de Paris, por debaixo da banca de uma peixeira, entre o lixo, a 17 de Julho de 1738. Ninguém o queria porque algo estava errado, muito errado, com ele: o seu corpo não tinha cheiro, nem bom nem mau, nenhum aroma emanava de Grenouille.
Ele era capaz de comer diariamente sopa azeda e aguada, sobrevivia com o leite mais diluído e pobre, e matava a fome com os legumes e as carnes mais podres do mercado. Ao longo da sua infância, sobreviveu ao sarampo, à disenteria, à varicela, à cólera, a uma queda de seis metros num poço e a um banho, não intencional, com água a ferver.
Apesar deste duro legado em forma de cicatrizes, arranhões, feridas e um pé magoado (que o fazia mancar), e contra todas as previsões, sobreviveu. Era duro como uma bactéria resistente e auto-suficiente como um insecto, que consegue viver apenas com uma gotinha de sangue sugada já no ano passado. Precisava do mínimo de nutrientes, de roupa necessitava apenas da indispensável para cobrir o corpo. Para a alma, não precisava de nada, era imortal. Amor, carinho, afectos e amizade eram conceitos tão estranhos quanto distantes.
Apesar de todo este “mau-feitio”, Grenouille era dotado de um enorme dom: a de conseguir detectar o aroma de tudo o quanto existia. Devido a essa mais-valia, em adolescente, passou a trabalhar como aprendiz de perfumista, e é nessa arte que cria o único objectivo da sua vida: o de criar um perfume que lhe permitisse ter o seu próprio cheiro. Para tal, tem de captar o aroma, a essência, a alma cheirável, de bonitas jovens virgens a fim de criar um perfume tão perfeito, que a sua doçura fosse capaz de captar a atenção de todos os que o rodeavam.
Se quiserem conhecer o final, leiam o livro, pois este resumo serviu apenas para introduzir a importância dos aromas nas nossas vidas. Foi a capacidade de nos fazer sentir esses aromas, bons e maus, página após página, que me fez “devorar” o livro em apenas 2 dias. Todos já ouvimos falar dos misteriosos poderes do olfacto na amizade, no amor e nas relações humanas, tendo sido já cientificamente comprovado que o olfacto é o sentido mais ligado à memória e às emoções. Muitas das boas recordações da vida de um enófilo surgem acompanhadas por uma boa garrafa de vinho (gostaram da transição? ;)).
Este intoxicante poder dos aromas ficou bem vincado na Essência do Vinho – Porto 2020 😉 Foram quatro dias memoráveis, com mais de 400 produtores e cerca de 4000 vinhos representados e em degustação, de Portugal e do mundo, e 50 actividades paralelas. Entre estas incluíram-se provas temáticas, conversas sobre vinho, harmonizações enogastronómicas e jantares vínicos.
Este ano houve menos confusão, mais diversidade nas provas, um maior empenhamento dos produtores e melhorias evidentes na organização, que todos continuem assim no próximo ano 😉
Voltando aos aromas dos vinhos, gostei muito da mineralidade (xisto molhado), lima, flor de laranjeira, amêndoa tostada, delicadeza, harmonia e frescura do Alves de Sousa Berço Branco 2012 (35€, 90 pts.). Um vinho que tem tudo para melhorar em garrafa.
O Santiago na Ânfora do Rocim Branco 2019 (35€, 91 pts.) trouxe consigo os aromas terrosos (mais evidentes que na edição de 2018), a toranja, a lima, a flor de laranjeira, o damasco, a cera e o vegetal picante, que criaram um bouquet bastante rico e complexo. Exibe alguma salinidade, cremosidade e um final longo e bastante mineral (granito molhado).
Já o Villa Oliveira Encruzado 2016 (35€, 92 pts.) emanou pêssego, ananás, maracujá, tangerina, resina fumada, untuosidade, mineralidade (grafite), secura e complexidade. Já parecem surgir alguns abaunilhados/avelã resultantes do envelhecimento em garrafa, que lhe fazem antever um excelente futuro.
Passando para os tintos, o Quinta da Basilia Sousão 2016 (25€, 90 pts.), apesar de ainda jovem, já se exibia muito denso, com notas de carvalho, ameixa preta, amoras, anis, mirtilos, tabaco, encorpado, bastante fresco (resultante de uma acidez inquieta), e taninos aguerridos, acabando muito longo (só lhe faltava uma bela de uma lampreia ;)).
Os frutos silvestres, ameixa preta, amora, café, baunilha, leve couro, taninos polidos, volume, estrutura, concentração e secura foram os cartões de visita do Julian Reynolds Grande Reserva Tinto 2011 (25€, 92 pts.)
O Tiago Cabaço Blog Tinto 2017 (25€, 93 pts.) surgiu, momentos depois, carregado de ameixa (desta vez vermelha), groselha, morangos, cereja, cacau, folhas de chã preto, pimenta preta, mineralidade (grafite), frescura e intensidade.
Gostei ainda da assertividade do Graham’s Single Harvest Tawny 1994 (125€, 95 pts) que traja uma sedutora e densa cor âmbar, e que se mostrou muito complexo: com mel, caramelo, especiarias, flores silvestres, mirtilos, figos secos, nozes e café. Termina delicado, longo e equilibrado.
Da Madeira chegaram as notas a laranja confitada, caramelo, nozes, figos secos, cacau, resina, salinidade, doçura equilibrada pela acidez inebriante, e elevada concentração do Blandy’s Malmsey 1981 (360€, 95 pts).
Num perfil diferente, o Ramos Pinto Vintage 2000 (60€, 92 pts) surpreendeu pelas uvas passas, bagas pretas, caramelo picante, baunilha suave, taninos de veludo e uma acidez discreta (mas presente). Está na altura ideal de consumo. Para último, uma agradável e aromática surpresa, o Niepoort Vintage Bioma Vinha da Pisca 2017 (??€, 100 pts).
Tão surpresa que não faço a menor ideia de quanto vai custar, mas quanto à classificação, não há dúvidas, 100 pontos 😉 O chocolate preto amargo, a ameixa preta, as amoras, os mirtilos (toda a fruta com uma “verdura” muito interessante), a madeira mais presente do que no seu irmão Niepoort Vintage 2017, a frescura incrivelmente precisa, os taninos firmes e aguerridos mas a quererem ser domados pela garrafa, a elevada concentração e interminável final de boca são sedutoramente intoxicantes. Estamos na presença de um benjamim com alma de guerreiro 😉
Tivemos ainda o prazer de participar na «Casa Ferreirinha Callabriga: prova vertical», na «Riesling, a casta dos sommeliers» e na «Herdade Das Servas: a estreia do Carignan e a consolidação das vinhas velhas», das quais vos falarei mais tarde. A Essência do Vinho – Porto estará de regresso ao Palácio da Bolsa de 25 a 28 de Fevereiro de 2021, uma 18.ª edição que promete um programa memorável para assinalar o marco da maioridade.
Até à próxima, entretanto, continuem-se a deixar seduzir pelo intoxicante poder dos aromas do vinho que nos vai pincelando a alma com memórias e emoções.;)
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