Dona Matilde | A autobiografia de uma ostra

“Os diamantes são apenas pedaços de carvão que não desistiram e continuaram a trabalhar.“  Minnie Richard Smith

Dona MatildeA Quinta Dona Matilde é uma das mais antigas propriedades do Douro, integrando a primeira demarcação ordenada pelo Marquês de Pombal em 1756. Localizada junto à belíssima estrada N222, entre a Régua e o Pinhão, com ampla frente para o rio Douro, a quinta pertence à família de Manuel Ângelo Barros desde 1927. Este produtor é neto do fundador da quinta e foi administrador durante 30 anos do grupo Barros, um dos mais importantes no Douro, no século XX.

Dona Matilde Já neste século, aquele grupo familiar foi vendido à espanhola Sogevinus, mas Manuel Barros acabou por comprar de volta a Quinta Dona Matilde, mantendo-se na produção de vinho do Douro, em conjunto com o seu filho mais novo, Filipe Barros. Por estas circunstâncias, os vinhos Dona Matilde estão no mercado com nome próprio apenas desde 2007, mas a família dinamizadora está na produção de vinhos do Porto e do Douro há quatro gerações. 

Dona MatildeFocados no projeto de vinhos em torno da quinta, a família tem trabalhado na última década na valorização do património vitivinícola – entre socalcos ingremes, as vinhas de montanha da Quinta Dona Matilde, num total de 28 hectares, formam um mosaico vinícola diversificado, de vinhas com idades entre os 90 e os 22 anos e exposições solares diversas, integradas numa paisagem com uma grande beleza e biodiversidade, onde se incluem oliveiras, citrinos, horta, jardins e vegetação tipicamente mediterrânica (área total de 96 hectares).

Dona Matilde

Esta quinta clássica do Douro, do vinho do Porto e dos DOC tintos,  tem vindo a surpreender também com os seus vinhos brancos, capazes de provar que é possível produzir brancos com expressão do lugar, excelente frescura e acidez a cotas baixas, junto ao rio Douro. Um bom exemplo disso mesmo é o Dona Matilde Branco 2019, lançado online na semana passada.

Dona MatildeResultante da apanha da uva (Arinto, Viosinho, Rabigato e Gouveio) à mão e em caixas de 25 kg, de uma pré-selecção dos cachos à entrada, de uma prensagem suave, de fermentação a temperatura controlada e de um estágio por 6 meses em cuba, o Dona Matilde Branco 2019 (10€, 82 pts.) traja um amarelo citrino com pequenas nuances esverdeadas e no nariz apresenta-se com aromas focados e muito florais a lúcia-lima, violetas e flor de limoeiro. 

Dona MatildeSurgem ainda apontamentos tropicais (ananás) muito discretos e um anis que o abre em termos de complexidade.   No palato as notas vegetais verdes e a boa acidez equilibram a maturação que o vinho tem (14% de álcool). Exibe bom volume, estrutura (surpreendente até pela falta de madeira), equilíbrio e persistência. 

Dona MatildeNota-se claramente que é um vinho que tinha tudo para ser carvão, mas que com trabalho, tempo, conhecimento e dedicação se tornou diamante 😉 A demonstrar esse bom equilíbrio entre maturação e frescura, resultante de um preciso trabalho de joalharia, surge o sucesso com que acompanhou um Carpaccio de atum, vinagrete de manga, parmesão e caviar.

Dona MatildeEste trabalho minucioso e de joalharia na vinha e adega explora o conhecimento do património vitícola da quinta, parcela a parcela, visando tirar o máximo partido do potencial de cada uma dessas parcelas. A quinta mantém, no entanto, a aposta na produção dos tradicionais blends do Douro, como este branco, com um perfil elegante, sem muita extracção, de aromas complexos, concentrados e com uma longevidade capaz de oferecer surpresas aromáticas, fruto do passar do tempo.

Dona MatildePureza, beleza, sofisticação e elegância, tudo características de uma pérola, em forma de uma autobiografia de uma ostra, resultante do acaso (num milhão de ostras, apenas uma delas produz uma pérola natural) e de muito trabalho, e que por isso me pareceu uma excelente metáfora para este vinho 😉

Carpaccio de atum, vinagrete de manga, parmesão e caviar:

-Enrolem o lombo de atum temperado com sal e pimenta em película aderente, apertem-no bem e atem as pontas. Levem ao congelador, durante pelo menos seis horas. Decorrido este tempo, desenrolem o atum e retirem-lhe a película. Cortem-no em fatias, o mais finas possível (o facto de estar congelado vai ajudar-vos);

-Para o vinagrete ponham num recipiente (para mais tarde liquidificarem) o vinagre (uma chávena de café), azeite (três chávenas de café), sal, pimenta, noz moscada, uma colher de sopa de mostarda, um pouco de pimento vermelho a gosto, algumas alcaparras, uma manga e sumo de 3 limões. Liquidifiquem até ficar tudo homogéneo. No final coloquem um pouco de brandy. Se estiver demasiado espesso acrescentem mais sumo de limão/laranja; 

-Ao empratarem juntem caviar, sal preto e umas aparas de parmesão. 

 

Créditos: Os direitos desta última foto (Administradores – Filipe Barros e Manuel Angelo Barros, viticultor- José Carlos Oliveira e enólogo – João Pissarra) pertencem a Anabela Trindade.


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