Convento do Espinheiro | Com Toda a Certeza, Talvez

“Nasce um Deus. Outros morrem. A verdade nem veio nem se foi: o Erro mudou. Temos agora uma outra Eternidade, E era sempre melhor o que passou. Cega, a Ciência a inútil gleba lavra. Louca, a Fé vive o sonho do seu culto. Um novo Deus é só uma palavra. Não procures nem creias: tudo é oculto.”
Fernando Pessoa

Plutarco conta que, no século I antes de Cristo, ofereceram a Quinto Sertório uma corça branca. O general romano, então em campanha na Hispânia, percebeu rapidamente que a raridade do animal poderia valer-lhe mais do que a sua beleza. Domesticou-o e convenceu os soldados de que fora enviado por Diana e que, através dele, a deusa da caça lhe revelava o futuro. Quando os informadores de Sertório lhe traziam secretamente boas notícias, o general fazia aparecer a corça e atribuía à intervenção divina aquilo que os seus espiões lhe tinham contado.

A corça não precisava de falar com Diana, bastava que os homens acreditassem que falava. Talvez poucas coisas nos definam tão profundamente como esta capacidade de acreditar naquilo que não conseguimos provar. Mudaram os deuses, os rituais e as respostas que procuramos neles. Permaneceu a necessidade de encontrar significado para aquilo que os olhos, sozinhos, não conseguem explicar.

E poucas cidades portuguesas parecem conviver tão naturalmente com essa fronteira incerta entre História e lenda como Évora. Na então Ebora romana, a memória da cidade ficou também ligada a Sertório, general romano que acabaria, paradoxalmente, por combater o poder da própria Roma. Tomara partido por uma das fações derrotadas nas guerras civis da República e, quando Sula conquistou o poder e perseguiu os seus adversários, Sertório encontrou no ocidente da Hispânia um lugar de resistência. Entre os Lusitanos encontrou aliados e em Ebora uma nova base para a sua luta. Durante anos, aquele romano combateu os exércitos enviados por Roma enquanto procurava construir, longe da capital, uma outra ideia de Roma.

Talvez por isso a sua história pertença tão bem a Évora: porque também ela parece existir nesse território onde as fronteiras se confundem. Entre centro e periferia, vencedor e vencido, facto e lenda, aliado e inimigo, homens e deuses. Quase quinze séculos depois da corça branca, já ninguém procurava Diana nestas terras. Roma desaparecera, outros povos tinham atravessado a Península e outro Deus ocupara o lugar dos antigos.

Desta vez, o extraordinário escolheu um espinheiro. Conta a tradição que, por volta de 1400, Nossa Senhora apareceu a um pastor sobre um espinheiro nos arredores de Évora. Algumas versões acrescentam que o arbusto ardia sem se consumir, numa imagem que inevitavelmente nos recorda a sarça ardente de Moisés.

Nunca saberemos aquilo que o pastor viu. Talvez essa nem seja a pergunta mais interessante. Porque aquilo que aconteceu depois pode ser tocado. A devoção cresceu, os peregrinos chegaram e, em 1412, foi construída uma pequena ermida. Décadas depois surgiriam a igreja e o convento dos monges jerónimos. A crença materializara-se em pedra.

D. Afonso V tornou-se devoto de Nossa Senhora do Espinheiro. D. João II frequentou o convento e mandou construir junto da igreja uma hospedaria para as suas estadias. Reis, princesas e nobres atravessaram aquelas portas e acrescentaram novas histórias àquela que começara com um pastor e uma árvore.

Uma delas é particularmente deliciosa…

Em 1490, a corte encontrava-se em Évora para o casamento do príncipe D. Afonso, filho de D. João II, com Isabel de Aragão, filha dos Reis Católicos. Segundo a tradição conservada pelo convento, o príncipe terá visitado a futura mulher antes de o matrimónio ser consumado e ambos terão decidido, digamos, ensaiar os prazerosos deveres conjugais antes de receberem autorização divina para os cumprir.

Nessa noite, uma tempestade atingiu o convento e um merlão de pedra caiu sobre os aposentos do príncipe. Para os monges,não haviam dúvidas, Deus acabava de emitir a sua opinião sobre a dita antecipação.

Quando, meses mais tarde, D. Afonso morreu numa queda de cavalo, a coincidência tornou-se ainda mais fácil de transformar em providência.

Talvez seja isso que fazemos desde sempre. Perante o acaso, procuramos uma narrativa. Ligamos acontecimentos, procuramos causas, inventamos significados. Porque uma história, mesmo improvável, é muitas vezes mais confortável do que admitir que certas coisas simplesmente acontecem.

Foi com algumas destas histórias na cabeça que atravessámos, mais de seiscentos anos depois da primeira ermida, as portas do Convento do Espinheiro Historic Hotel & Spa.

Os monges partiram depois da extinção das ordens religiosas, mas muito do convento permaneceu. E essa é a primeira grande qualidade deste cinco estrelas às portas de Évora: não utiliza a História apenas como decoração. Deixa-nos entrar nela.

O conjunto reúne atualmente 92 quartos, incluindo 10 suites (nós ficámos instalados na Suite Garcia de Resende), distribuídos entre a ala histórica e uma ala contemporânea. A segunda oferece uma leitura assumidamente moderna, a primeira guarda inevitavelmente maior capacidade de sedução. Num lugar destes, a irregularidade de uma parede pode valer mais do que muito design cuidadosamente estudado.

O conforto corresponde ao que se espera da categoria, mas seria estranho escolher o Espinheiro apenas pela dimensão do quarto ou pela óbvia qualidade da cama. Piscinas interiores e exteriores, ginásio, campos de ténis, extensos jardins e o Diana Spa, com massagens e tratamentos, completam uma oferta de lazer muito competente. A antiga cisterna gótica encontrou uma segunda vida ligada ao vinho e os claustros, a igreja e os espaços conventuais preservados fazem com que uma simples caminhada pelo hotel possa transformar-se numa descoberta.

Esse é o verdadeiro luxo do Espinheiro. Não aquilo que foi acrescentado, mas aquilo que tiveram a inteligência de não retirar. E essa convivência entre passado e presente continua à mesa. O Divinus ocupa a antiga adega-lagar do convento, numa extraordinária sala de 36 metros, dividida em três naves sob abóbadas de cruzaria de ogivas. A cozinha parte declaradamente do Alentejo, mas procura fazê-lo sem confundir tradição com repetição.

Começámos pelo Porco Preto e Bolota — Terrina de Porco Preto, Puré de Bolota e Gamba da Costa. Porco e bolota pertencem à mesma paisagem antes de pertencerem ao mesmo prato. A gamba quebra essa previsibilidade com uma nota marítima e delicada. É uma entrada profundamente territorial sem se tornar folclórica.

Mais interessante ainda foi o Cação e Coentros — Caldo de Cação, Coentros, Cação Frito, Cação Curado, Pão Frito e Puré de Alho Assado. Cação, pão, alho e coentros pertencem ao vocabulário mais elementar da cozinha alentejana. O Divinus não altera a língua, muda-lhe a gramática. O peixe aparece em diferentes tratamentos, o pão ganha textura, o alho doçura e os coentros devolvem-nos imediatamente ao lugar de onde o prato partiu.

Talvez seja essa a forma mais inteligente de modernizar uma tradição: transformá-la o suficiente para despertar curiosidade, mas nunca ao ponto de deixar de se reconhecer ao espelho.

Nos principais, o Robalo e Lavagante — Robalo, Lavagante, Arroz de Bivalves e Jus de Robalo Assado constrói-se por acumulação de sabores marítimos. O robalo traz delicadeza, o lavagante doçura e opulência, o arroz concentra o sabor dos bivalves e o jus acrescenta profundidade. Um prato que não procura contraste, antes sim intensidade.

Com o Borrego — Borrego, Ervilhas e Paio de Porco Preto regressamos à terra. Mais simples na descrição, talvez por isso mesmo muito coerente: a identidade do borrego, a frescura e doçura vegetal das ervilhas e a intensidade curada do paio encontram-se num prato que não precisa de excessos técnicos para justificar o lugar que ocupa.

Terminámos com Amêndoa, Pêra e Limonete — Financier de Amêndoa, Pickle de Pêra, Mousse de Limonete, Infusão de Especiarias e Gelado de Amêndoa. Depois de uma refeição dominada por sabores profundos, a sobremesa escolhe perfume, acidez e delicadeza. A amêndoa dá-lhe estrutura, a pêra oscila entre doçura e acidez e o limonete limpa e perfuma.

Não cessa o jantar com um ponto de exclamação. Termina-o com reticências…

No dia seguinte trocámos a solenidade do Divinus pelos claustros e por uma pequena carta manuscrita de tapas: Polvo, Tiras de Plumas, Ovos de Codorniz, Coelho à S. Cristóvão e Cabeça de Xara.

Gostei particularmente desta outra face do Espinheiro. Menos cerimonial, mais descontraída, mas ainda profundamente ligada ao território. Comer cabeça de xara e coelho num claustro de um hotel de cinco estrelas pode parecer uma pequena contradição; na realidade, talvez seja uma demonstração de coerência. Sofisticação não significa apagar a origem das coisas.

E sentados ali, perante pratos que poderiam pertencer à memória de uma velha cozinha alentejana, o convento pareceu fazer ainda mais sentido.

Um lugar sobrevive verdadeiramente quando deixa de precisar de ser contemplado à distância. Quando continuamos a atravessá-lo. A conversar nele. A comer. A beber. A dormir. Confessem que já estão com medo do verbo seguinte 😛

O Convento do Espinheiro não é perfeito por ser antigo, nem extraordinário simplesmente porque os reis passaram por aquelas salas. O seu mérito está na forma como consegue continuar vivo sem precisar de esconder aquilo que foi.

E talvez seja por isso que, no momento de partir, voltei a pensar na corça de Sertório e no pastor diante do espinheiro. Não sabemos se Diana alguma vez falou através de uma corça. Não sabemos aquilo que o pastor realmente viu.

Nem se Deus se preocupou com o «roça-roça» de dois jovens apaixonados ao ponto de lhes atirar um pedaço de igreja.

Ou talvez a dúvida esteja no verbo errado.

Porque acreditar também significa admitir que nem tudo aquilo que é verdadeiro precisa de caber naquilo que conseguimos demonstrar. Talvez o pastor tenha simplesmente olhado para um espinheiro. Talvez tenha visto aquilo que disse ter visto. Entre uma possibilidade e a outra fica esse território imenso onde a razão termina sem que, necessariamente, termine a verdade.

Eu, que acredito, não preciso de escolher entre a lenda e a História, como não preciso de escolher entre a fé e a razão. Prefiro pensar que ambas procuram, com instrumentos diferentes, aproximar-se de perguntas que nos acompanham desde sempre.

Seja qual for a resposta, naquele lugar os homens acreditaram. Caminharam até ali. Construíram. Rezaram. Amaram. Comeram. Dormiram. Nós fizemos algumas dessas mesmas coisas … seis séculos depois. E, pelo menos nas nossas conversas e nos nossos pensamentos, Sertório e a sua corça branca, Diana e o pastor, príncipes e reis voltaram, por instantes, a viver dentro daquelas paredes.

E quando deixámos o Convento do Espinheiro pensei que talvez a fé não seja acreditar no impossível, mas aceitar que o possível pode ser maior do que aquilo que conseguimos explicar.

Para muitos, Nossa Senhora nunca apareceu naquele espinheiro. A razão pede provas, e talvez faça bem em pedi-las.

Mas … talvez tenha aparecido.

Porque nem tudo o que não conseguimos provar deixa, por isso, de poder ser verdadeiro. Entre aquilo que sabemos e aquilo em que acreditamos existe um território que nenhuma ciência conseguiu cartografar por inteiro. Chamamos-lhe mistério. Alguns chamam-lhe fé.

E talvez seja precisamente nesse espaço, nesse pequeno e imenso «talvez», que o homem, desde sempre, levanta os olhos quando a razão já não consegue levá-lo mais longe.

Às vezes encontra apenas o céu. Outras vezes encontra Deus. E, de vez em quando, baixa novamente os olhos, pega numa pedra e constrói uma catedral, na esperança de diminuir a distância entre ambos.

Se me perguntarem se foi assim que tudo aconteceu, depois de Sertório e da corça, de Diana e do pastor, de príncipes, reis, lendas, pedras e seis séculos de fé, continuo a ter apenas uma resposta:

Com toda a certeza, talvez.


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