“Não são os nossos olhos que vêem, mas sim o que nós conseguimos ver através dos nossos olhos.” Platão
Se vocês relacionaram o amor, as sombras e a caverna do título desta publicação com As Cinquenta Sombras de Gray, é bom que percebam que precisam de tratamento urgente, há coisas que nem o calor explica 😉
Para os menos “mente-poluída” é óbvio que o título tem a ver com um dos textos mais conhecidos de Platão. A alegoria ou mito da caverna fala-nos sobre prisioneiros (privados da liberdade desde o nascimento) que vivem acorrentados numa caverna e que passam o tempo a olhar para a parede do fundo da caverna e que é iluminada pela luz de uma fogueira. Nesta parede são projectadas sombras de estátuas representando pessoas, animais, plantas e outros objectos, mostrando cenas e situações do quotidiano.
Os prisioneiros entretêm-se a dar nomes às imagens (sombras), analisando e julgando sobranceiramente as situações. Vamos agora imaginar que um dos prisioneiros é libertado para poder explorar todo o novo mundo que se encontra lá fora. Por certo, entraria em contacto com uma nova e inesperada realidade e perceberia que tinha passado toda a sua vida analisando e julgando o mundo através de imagens projectadas por estátuas.
Esta nova admirável realidade, com certeza, deixaria-o encantado com os seres reais, com a natureza, com os animais e com os humanos livres. Voltaria, contente e carregado de informação, para a caverna, ambicionando partilhar todo o conhecimento adquirido fora da caverna com os seus amigos presos.
Porém, iria ser ridicularizado ao contar tudo o que viu e sentiu, pois seus amigos só conseguiam acreditar na realidade que viam na parede iluminada da caverna. Os prisioneiros iriam-no chamar de maluco, ameaçando-o de morte, caso não parasse de contar aquelas histórias absurdas.
Apesar de ter sido escrita por volta de 540 aC, a alegoria da caverna é bastante actual, porque a vida real é mesmo assim. Haverá sempre os que duvidam, os que questionam, e os que só conseguem acreditar cegamente na realidade reflectida na parede iluminada da caverna. No mito, os prisioneiros são uma parte de nós que se deixa acorrentar pelo imediatismo e superficialidade das projecções ou sombras que nos rodeiam, nos conceitos e nas informações que recebemos ligeiramente.
A caverna representa, assim, a nossa saída do mundo real e o nosso aprisionamento por essas sombras mediáticas. As correntes dos prisioneiros simbolizam a ignorância que escolhemos manter, acreditando cegamente em toda a informação que nos chega. Finalmente, as sombras metamaforizam as ilusões de “perfeição” por fazermos as coisas que a maioria define como tendência.
Não procuramos a essência das coisas, dos valores, mas com a futilidade/facilidade do mundo das aparências, tal e qual como os prisioneiros. Platão, com esta alegoria da Caverna, pretendeu discutir as diversas formas que o ser humano tem à sua disposição para apreender o conhecimento, as realidade novas e o esforço, muitas vezes necessário, para “lutar” pela verdade e para fazer as coisas “à nossa maneira”.
Foi para fazer as coisas “à maneira dele”, não ligando às sombras da caverna que John Graham fundou a Churchill’s em 1981, tornando-a a primeira empresa de vinho do Porto a ser estabelecida em 50 anos. John Graham queria continuar a longa tradição/sombra nos vinhos do Porto da sua família, mas ao mesmo tempo criar seu próprio estilo de vinhos.
Ao contrário do que possam pensar, Churchill’s não é uma homenagem ao primeiro-ministro britânico viciado em Champanhe, mas sim um tributo à história de amor que vive com a sua esposa, Caroline Churchill. A compra da Quinta da Gricha em 1999 foi um passo não só importante como também fundamental para levar a Churchill’s à produção de vinhos do Douro e torná-los um caso de particular sucesso. É sobre os vinhos que lá se produzem que vos vou falar hoje.
O jantar iniciou com a presença do amarelo-citrino pálido Churchill’s Estates Douro Branco 2019 (13€, 88 pts.). É muito mineral (grafite) no nariz com casca de limão, acácia-lima, flor de laranjeira e leves notas alperce caramelizado. No palato exibe-se com muita frescura, elegância e equilíbrio.
Acompanhou muito bem a entrada Alperce confitado com iogurte grego, espinafres e perdiz desfiada mas foi perfeito a equilibrar a frescura salina e tropicalidade do Polvo com mostarda de manga, gelado de beterraba e crumble de maçã com amêndoa.
Para harmonizar a Coxa de pato, arroz negro e batata gratinada, nada melhor que o enorme Churchills Estates Grande Reserva Tinto 2013 (40€, 93 pts.) De cor rubi-violeta densa e concentrada, o seu nariz é alimentado por cedro, resina, manjericão, esteva, frutos silvestres e amoras maduras.
Na boca para além de uma excelente mineralidade (xisto partido) e enorme frescura, carrega uns taninos sólidos, poderosos e a arredondar. Apaixonei-me por esta combinação entre músculo e delicadeza. Para acompanhar o Pudim de frutos de Verão feito pelos meus amorosos cunhados vínicos Luís e Sylvie (gostam da nossa garrafeira? Eheh, brincadeira ;)), o Churchills 20 years Tawny Port (45€, 94 pts.).
Veste uma cor tawny avermelhada com ligeiras nuances douradas. O nariz é muito elegante com amêndoas, cerejas vermelhas, lavanda e um ligeiro melaço. No palato é exuberante, saboroso e complexo, numa combinação perfeita entre fruta e madeira.
Para a conversa com um queijo Saint Albray e para terminar a longa jantarada (acabou às 3 da manhã já com os pequenotes a dormir), surgiu o Churchill’s LBV 2015 (25€, 87 pts.). Com uma cor rubi com bordas violetas, tem aromas complexos, combinando minuciosamente notas de esteva e resina com notas de menta, pimenta branca e fruta (amoras e ameixa preta).
No palato, mostra todo o seu esplendor ao revelar notas adicionais de romã e chocolate preto, suportados por taninos firmes e acidez acutilante. Muito “fixe”.
Todos estes vinhos tinham no ADN a frescura duriense, uma mineralidade quente e o respeito pelas características das uvas, resultantes da simbiose entre a arte dos enólogos com as características especiais do terroir da Quinta da Gricha. E claro, contam também com uma pitada de amor dos proprietários. Gricha significa rocha, fraga ou caverna, donde sai água. Desta caverna onde inicialmente existiam sombras … sai vinho, e do bom 😉
Polvo com mostarda de manga, gelado de beterraba e crumble de maçã com amêndoa:
-Para a mostarda de manga ponham num recipiente (para mais tarde liquidificarem) o vinagre (uma chávena de café), azeite (três chávenas de café), sal, pimenta, noz moscada, uma colher de sopa de mostarda, um pouco de pimento vermelho a gosto, algumas alcaparras, uma manga e sumo de 3 limões. Liquidifiquem até ficar tudo homogéneo. No final coloquem um pouco de brandy. Se estiver demasiado espesso acrescentem mais sumo de limão/laranja;
-Para o gelado cozam as beterrabas já descascadas em água e sal (reservem uma para levarem ao forno). Triturem-nas e juntem um pouco de ginja, açúcar mascavado, natas magras, sal e sumo de um limão e cozinhem por 2 minutos. Levem ao congelador para usarem mais tarde (necessita de pelo menos 4 horas antes de ser servido);
-Cozam o polvo apenas com sal até ficar al dente;
-Descasquem as maçãs e cortem-as em quartos, retirando o caroço. Coloquem-nas num tacho, juntamente com o açúcar, a canela, a raspa de limão e o vinho do Porto. Levem a lume brando, mexendo de vez em quando, e deixem cozinhar até às maçãs se desfazerem. Juntem farinha, açúcar, manteiga e amêndoa palitada. Com as mãos esfarelem a manteiga com a farinha e os restantes ingredientes. Aumentem a intensidade do lume e deixem tostar.
Coxa de pato, arroz negro e batata gratinada:
-Na véspera ponham a marinar as coxas com sal, pimenta, noz moscada, loureiro, alho, whiskey, vinho do Porto Ruby e azeite;
-No dia seguinte, após alourarem o pato em azeite e alho, levem-no a assar na marinada, acrescentando 500ml de caldo de galinha, um pau de canela e uma estrela de anis. Assem durante duas horas a 180ºC, virando as coxas a cada meia hora.
Pudim de frutos de Verão (by cunhaditos e um tal de Gordon Ramsay):
-Coloquem o leite gordo (600 mL), uma vagem de baunilha aberta ao meio e com as semente extraídas e uma colher de sopa de açúcar num tacho e deixem levantar fervura. Entretanto, batam 6 gemas de ovo, 40g de farinha de milho e 50g de açúcar numa tigela. Adicionem aos poucos o leite quente, mexendo vigorosamente para impedir que os ovos solidifiquem. Cozinhem em lume brando, mexendo constantemente até o molho ganhar espessura (imediatamente antes de levantar fervura). Transfiram para uma tigela e deixem arrefecer, mexendo ocasionalmente para evitar que se forme uma película à superfície;
-Quando o creme tiver arrefecido, batam 150 mL de natas em chantilly e incorporem-nas no creme, para o suavizar. Levem-no ao frigorífico (de um dia para o outro);
-Para montar a sobremesa, escolham 8 copos transparentes, preencham 1/3 de cada um com o creme. Cortem 4 morangos bonitos em quartos e reservem, juntamente com 8 pezinhos de groselha. Coloquem o resto numa tigela grande com 1 colher de sopa de creme de cassis e um pouco de açúcar em pó. Esmaguem os frutos (150g de framboesas, 150g de morangos 150g de groselhas) com um esmagador de batatas até obterem uma textura parecida com uma compota. Deitem uma camada desta mistura em cada copo e cubram com o resto do creme. Se tiver sobrado, deitem um pouco do sumo dos frutos esmagados por cima do creme e guarneçam com os morangos e groselha reservados.
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