“Todo o fantasma, toda a criatura de arte, para existir, deve ter o seu drama, ou seja, um drama do qual seja personagem e pelo qual é personagem. O drama é a razão de ser do personagem; é a sua função vital: necessária para a sua existência.” Luigi Pirandello
Começo com um dos livros da minha vida, Memorial do Convento. Neste assombroso romance de José Saramago, vamos conhecendo um jovem casal, Baltasar e Blimunda, que unido pelos caprichos do destino se tornou cúmplice da invenção da passarola voadora (o primeiro “avião”) e da construção do belíssimo convento de Mafra em Portugal. Baltasar era limitado, Blimunda via muito além.
Em torno desta história de amor deliciosa existem outros personagens e estórias: há o rei, há o nobre, há o criminoso, há o povo faminto e há as perseguições da Santa Inquisição. O enredo leva este estranho casal na jornada das suas vidas, ao enfrentarem as aparentes impossibilidades de seu tempo, enquanto tentam responder a algumas das questões mais profundas da sua vida e do seu amor. Num trama mais secundário, D. João V promete a Deus e à Igreja a construção de um convento caso tenha um filho com D. Josefa. A rainha engravida e o Convento de Mafra é construído por vontade do rei, sacrificando o tesouro do reino e o povo.
Há um sonho visionário e tecnológico, um sonho mágico, um sonho comunitário a alimentar todo o romance, pincelando cada palavra com tons de esperança. Este livro sobre tudo é tão impactante que Pilar del Rio (esposa de Saramago), colocou-o dentro do caixão no seu funeral, tendo sido Saramago, desta forma, cremado com o Memorial do Convento. Esse exemplar ficou em cinzas, o Convento que serviu de inspiração nunca teve tantas memórias, como a partir desse momento.
Para além da obra de Saramago, o Convento de Mafra é também famoso pela histórias dos seus fantasmas. Os Mafrenses mais antigos dizem que estranhos seres habitam os calabouços do convento. Há quem fale numas ratazanas mutantes, imunes a qualquer veneno. Outros alegam que os barulhos esquisitos são os espíritos dos antigos trabalhadores, que ali morreram, devido às más condições de trabalho, e que por isso ainda hoje assombram o convento.
Mas nem todos as lendas de fantasmas que habitam os conventos são más… (não estava fácil esta transição ;)). Esta é história das 2000 garrafas perdidas nas catacumbas de um outro convento, o de São Pedro das Águias. Começa em 2018 quando Christoph Kranemann, enófilo de origem alemã, se apaixona pela Quinta do Convento de São Pedro das Águias, no Douro. O sonho de se estabelecer enquanto produtor, outrora equacionado para a Austrália, tinha encontrado o palco com os argumentos perfeitos: a beleza agreste do Vale do Távora; um terroir único de altitude; o mítico Convento de São Pedro das Águias, com potencial para dar lugar a um hotel; e uma das mais modernas adegas do Douro, construída em 2007, incluindo um importante património de Porto nas suas caves.
Mas Christoph Kranemann, interessado por história, arquitetura e geologia, estava a investir em mais do que isso. Percebeu-o quando pediu à equipa de enologia, chefiada pelo enólogo Diogo Lopes, para proceder ao inventário dos vinhos existentes. Aí surgiram as surpresas, qual história de ficção, em plenas catacumbas do Convento de São Pedro das Águias… Entre barricas de Porto antigos, tintos e até brancos, apareceu então um amontoado de garrafas de um Douro, de cor dourada, bem evoluído.
A primeira rolha aberta revelou algo de extraordinário na garrafa. A segunda, a terceira, a quarta e a quinta confirmaram que a primeira não era excepção. E a regra confirmou, aproximadamente, 2000 garrafas de um branco único, complexo, pleno de aromas terciários, e com uma acidez bem vincada. Um vinho untuoso e rico. Ou antes, uma relíquia, que se soube depois ter nascido de uma vindima de 1999, precisamente das vinhas velhas em frente ao convento.
Agora, cerca de 20 anos depois, esse vinho é então lançado no mercado, pela Kranemann Wine Estates. O Quinta do Convento Branco 1999 (32,50€, 94+ pts.) é um vinho intrigante e misterioso. Ao contrário de outros fantasmas traja um véu de cor dourada, brilhante e sedutora. No nariz é muito complexo, intenso e harmonioso, em que as notas de resina, mel, fruta (damasco, marmelo) quase em compota, frutos secos (noz e amêndoa), gengibre, laranja cristalizada (aquela do bolo rei) e o leve anisado lhe dão um tom aristocrático enorme.
Na boca, e ao contrário de outros brancos velhos que tenho provado tem uma enorme acidez (5,3 g/L de tartárico e pH de 2.99!!!). Após esquecermos a estalada vinda do além, tão inesperada quanto deliciosa da acidez, o vinho continua a surpreender com volume, untuosidade e uma ligeira adstrigênia que nos parece querer enganar ao dizer que estivemos a mastigar avelãs. O final é persistente, rico e elegante que equilibrou a voluptuosidade marítima de uns Bifes de atum grelhados com sementes de chia, frutos secos, ervilha de quebrar, cogumelos Shimeji e molho de marisco.
Este 1999 trouxe companhia para o jantar, o seu irmão mais novo Quinta do Convento Branco 2018 (11,90€, 90 pts.) que teve fermentação parcial em barricas de 500L de carvalho francês e em cubas de inox com temperatura controlada, e estágio sobre borra fina com batonnage durante seis meses.
O resultado foi um vinho de cor amarelo citrino com nuances esverdeadas, quase transparente, super elegante no nariz com notas de limonete, jasmim, maçã verde, folha de limoeiro e damasco. Na boca é fresco, ponderado e cremoso. Uma agradável surpresa.

Todo o fantasma, toda a criatura de arte, ou mesmo um vinho, para existir, deve ter o seu drama, ou seja, um drama do qual seja personagem e pelo qual é personagem. O drama é a razão de ser do personagem; é a sua função vital: necessária para a sua existência. Este, do encontro acidental destes 2000 fantasmas em forma de garrafas perdidas, desenrolado nas catacumbas do Convento de São Pedro das Águias, é muito bom e muito facilmente nos esquecermos dele.
Conta-nos a história de um vinho que tinha tudo para já ter subido às estrelas, e que no entanto ficou na terra, porque era à terra que pertencia e é nela que o podemos desfrutar.
Termino o texto de hoje, da mesma maneira que o comecei. «Não subiu para as estrelas, se à terra pertencia» é a última frase do Memorial do Convento e são as palavras inscritas na lápide de Saramago, ficariam muito bem no contra-rótulo deste vinho com alma de fantasma 😉
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