Battle After Battle | A coreografia do desgaste

“A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente.” Albert Camus

Começa com um horizonte que promete fuga e, num instante, contrai-se como um punho. Battle After Battle apresenta‑se logo aí: conflito como método, narrativa como arena, imagem como campo de tensão permanente.

Desde o primeiro plano, um horizonte que ameaça alargar-se mas que logo se fecha sobre si mesmo, percebe‑se que o filme não quer conforto. A encenação política surge não como pano de fundo, mas como força gravitacional. Tudo é atraído para essa inquietação estrutural que define personagens, ações, fraquezas e até silêncios. A guerra deixa de ser cenário para se materializar em idioma.

O humor corrosivo que atravessa o filme funciona como faca de dois gumes: ri‑se para sobreviver, jamais para aliviar. É um humor consciente de sua própria impotência, e por isso tão eficaz na ferida.

As performances sustentam essa fricção. O personagem interpretado por Leonardo DiCaprio, Bob, oferece uma espécie de exaustão moral deliberadamente contida; cada gesto parece calibrado como se carregasse o peso de decisões que já o ultrapassaram. Perfidia, interpretada por Teyana Taylor, cuja presença o filme inflama com rigor e respeito, evitando a caricatura do “símbolo”, torna‑se o eixo ético da narrativa, o corpo que permanece quando tudo o resto se desloca.

Há uma cena que permanece como cicatriz: a longa e quase exaustiva sequência das lombas na estrada, filmada com uma insistência deliberada que transforma cada ondulação do terreno em metáfora e cada vibração em carne. A câmara, colada ao movimento, prolonga cada solavanco com uma fisicalidade herdada do cinema dos anos 70, reforçada pelo grão e pela energia tátil do VistaVision, formato utilizado amplamente no filme. Uma decisão estética que Anderson e a equipa assumem para que o movimento seja também pensamento material. A cena é propositadamente demasiado longa, convertendo‑se numa montanha‑russa emocional que obriga o espectador a sentir o peso de cada pequena batalha superada, quase como se cada nova lomba testasse a vontade de continuar. O filme parece perguntar‑nos: e tu, que estás sentado no sofá, resistirias ao próximo impacto? Chega um ponto em que o corpo pede descanso, mas a narrativa exige permanência, e nesse intervalo entre recusa e insistência nasce a metáfora mais íntima do filme: a coragem é a persistência no desconforto, não a ausência dele.

Sean Penn, como o Coronel Steven J. Lockjaw, opera quase como uma presença tectónica, subterrânea, discreta, mas capaz de alterar a geografia emocional de um plano com um único olhar. Não precisa de violência explícita; basta‑lhe existir para que a ameaça se adense.

O enquadramento sociocultural é onde o filme encontra a sua camada mais profunda. Anderson não denuncia. Expõe sem apontar o dedo. Mostra como a maquinaria política, económica e afetiva transforma indivíduos em peças descartáveis, como se cada escolha fosse medida pela utilidade e não pela dignidade. O filme vê o mundo contemporâneo como quem percorre um campo de ruínas conscientes da mão humana que as ergueu.

É também por isso que Battle After Battle acabou por conquistar seis Óscares na 98.ª edição dos Academy Awards, um reconhecimento que não premia apenas o gesto formal, mas o fôlego ético da obra. Melhor Filme; Melhor Realizador (Paul Thomas Anderson); Melhor Argumento Adaptado (Paul Thomas Anderson, a partir de Vineland, de Thomas Pynchon); Melhor Ator Secundário (Sean Penn, como Coronel Steven J. Lockjaw); Melhor Montagem (Andy Jurgensen); Melhor Elenco/Casting (Cassandra Kulukundis), este último fazendo história como o primeiro Óscar de sempre nesta nova categoria. E porque, quanto a mim, os mereceu? Porque Anderson reencontra a rara confluência entre forma e consciência: um cinema capaz de pensar com o corpo e ferir com ideias. O Melhor Filme parece inevitável quando a política se inscreve na respiração das cenas; o Melhor Realizador confirma a mão que transforma risco em método; o Adaptado reconhece a ousadia de destilar Pynchon sem o domesticar; o Secundário para Penn legitima a ameaça subterrânea que organiza a narrativa; a Montagem, por Jurgensen, encarna o cansaço moral no próprio ritmo; e o Casting celebra a inteligência de um conjunto onde cada presença respira o mesmo oxigénio ético. À margem, uma convicção pessoal: a Montagem poderia muito bem ter recompensado Sinners: onde esse filme faz da edição uma arma rítmica, política e narrativa de precisão quase mecânica, em Battle After Battle afirma‑se sobretudo na encenação, na direcção de actores e na força visual do VistaVision, elementos muito mais óbvios, distintivos e determinantes no resultado final do que na própria montagem.

O final chega sem pressa e sem piedade. Não é intuitivo, não porque seja enigmático, mas porque recusa a infantilização. Não procura agradar, não oferece catarse, não entrega soluções pré‑cozinhadas. É um final que exige participação, como se o filme, até aqui, tivesse apenas alinhado perguntas e deixasse a última resposta por nossa conta.

Battle After Battle é, sim, menos um filme sobre batalhas do que um filme sobre o ato de permanecer de pé depois delas: sobre aquilo que continua apesar do ruído, o que sobra quando o mundo tenta deitar tudo abaixo, o que resiste mesmo quando já ninguém está a ver. É também neste gesto de sobrevivência teimosa que se adensa a sua metáfora política: não se limita a retratar um conflito entre grupos, mas expõe uma geografia emocional onde a confiança precisa de senha, a proximidade precisa de prova, e a intimidade funciona como laboratório do político.

A French 75 é memória de um ideal que oscila entre o romantismo e o trauma; os Christmas Adventurers são caricatura realista de uma elite que só se mantém pela exclusão ritual. A cidade surge como território fraturado, a estrada como manuscrito onde cada solavanco imprime uma pergunta moral.

E agora com SPOILERS.

No último ato, Willa manipula o “blind summit” e converte uma decisão física numa lição ética. Tim Smith falha a contrassenha, e é esse falhanço, não a arma, que determina o fim. Logo depois, Bob enfrenta o mesmo crivo: a arma apontada, a senha pedida, o instante suspenso entre dúvida e reconhecimento. Só então o abraço, uma reconciliação que só existe porque foi provada.

Lockjaw sobrevive ao acidente apenas para ser consumido pela própria confraria que o acolhe, gaseado e cremado como imperfeição. Uma metáfora brutal de um poder que se corrói por excesso de si.

Perfidia regressa através de uma carta, gesto humilde que não pretende reescrever o passado, mas abrir um hiato de futuro. A escrita, aqui, é a forma mínima de redenção possível. É precisamente aqui que os mais sensíveis vertem alguma(s) lágrima(s). Aqui, a existência (ou não) destes dois “S” não remete para qualquer passado sombrio e saudosista que alguns no filme (e no nosso meio) ainda veneram, mas antes para um certo sensómetro simbólico, um pequeno instrumento de sensibilidade cultural e memória, afinado o suficiente para perceber onde o filme toca e onde nos convoca a estar atentos ao que nos rodeia.

E por fim, Willa parte para Oakland, para um protesto, com a bênção de Bob. Este plano derradeiro não encerra. Lança, devolve‑nos à rua, ao mundo, ao trabalho inacabado da história.

Tudo converge numa lição dura e luminosa: a contrassenha é o nome secreto do mundo; o abraço, aquilo que só existe quando a contrassenha é dita; a estrada, a metáfora de uma democracia que vive nos solavancos, nos esforços repetidos, na persistência em avançar mesmo quando o corpo pede para parar. É assim que Battle After Battle nos ensina a continuar … sem ilusões, mas com a lucidez de quem escolhe não desistir.

Camaradas, a luta continua, lomba após lomba, por mais voltas, fricções e desalinhamentos que esta coreografia do desgaste ainda nos obrigue a dançar 😉


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