“Somos feitos do tecido dos sonhos … nossa vida é cercada de um sono.” William Shakespeare, A Tempestade, Ato IV, Cena I, tradução de Fernando Pessoa

O tempo tem uma crueldade particular: passa por tudo, mas não passa da mesma maneira por todas as coisas. Envelhece os corpos, apaga lugares, transforma memórias e, estranhamente, poupa certas palavras. Talvez o teatro seja uma das formas que inventámos para lhe desobedecer: durante algumas horas, alguém volta a dizer o que foi escrito décadas antes e aquilo que pertence ao passado torna-se novamente presente.
Poucas peças desafiaram o tempo como A Ratoeira. E poucos atores portugueses o desafiaram como Ruy de Carvalho. Talvez por isso tenha existido qualquer coisa de especialmente bela no encontro dos dois, naquela noite de abril, no Coliseu do Porto.
A história começa em 1947, quando a BBC transmitiu Three Blind Mice, uma pequena peça radiofónica de Agatha Christie destinada às comemorações dos 80 anos da rainha Mary. Mais tarde, a escritora desenvolveu-a para o teatro, acrescentou personagens e mudou-lhe o nome para The Mousetrap, numa referência à peça dentro da peça de Hamlet.
A versão teatral estreou-se em 1952 e chegou ao West End londrino a 25 de novembro desse ano. Christie calculava que pudesse permanecer em cena durante uns oito meses. Enganou-se por mais de sete décadas. A Ratoeira tornou-se a produção teatral de maior longevidade da história.
A própria história dos direitos parece escrita por Christie. Ofereceu-os ao neto Mathew Prichard pelo seu nono aniversário. O rapaz queria uma bicicleta. Recebeu A Ratoeira. Poucos presentes terão valorizado tanto com o tempo. E existe ainda uma ironia deliciosa: os direitos cinematográficos foram vendidos, mas o contrato determina que o filme só possa ser realizado seis meses depois de terminar a produção original no West End. Como a peça teima em não terminar, o cinema continua à espera.
Mais extraordinário ainda é o pacto estabelecido com quem a vê. No final, o público é convidado a guardar o segredo. Gerações inteiras aceitaram fazê-lo.
Também eu o farei.

Sobre a história, portanto, apenas o indispensável. Estamos no território clássico do whodunit: um grupo de pessoas, uma casa de hóspedes no campo inglês, neve suficiente para cortar as ligações ao exterior e a suspeita progressiva de que ninguém é exatamente aquilo que parece.
A encenação de Paulo Sousa Costa compreende bem esse universo. Madeira escura, papel de parede carregado, cortinas vermelhas, sofás, candeeiros, quadros, portas e escadas constroem uma Inglaterra simultaneamente confortável e inquietante.
E, no entanto, quase sentimos o frio lá fora.
Para além das cortinas imaginamos o branco, o vento, a temperatura a cair, os caminhos a desaparecer. A neve não precisa de estar diante de nós para se transformar numa presença. Quanto mais hostil imaginamos o exterior, mais pequenas parecem as distâncias no interior. O que deveria proteger começa também a aprisionar.
É uma das inteligências de Christie: transformar o conforto em ameaça. O perigo não precisa de chegar de um lugar estranho. Pode sentar-se num sofá, conversar connosco e esperar.
Da mesma forma, uma ratoeira não precisa de parecer uma ratoeira para funcionar.
A partir daí, também nós entramos no jogo. Um olhar demora demasiado. Uma resposta chega depressa demais. Uma porta abre-se. Uma frase aparentemente insignificante ganha importância. Construímos uma teoria, destruímo-la e começamos outra. A Ratoeira não procura ser um tratado sobre a condição humana. É antes uma máquina teatral de enorme precisão. Christie coloca as engrenagens diante dos nossos olhos e diverte-se com a nossa convicção de que conseguimos perceber quais delas movem realmente o relógio.
A encenação deixa essa máquina funcionar, equilibrando tensão e humor sem procurar modernizar artificialmente aquilo que continua eficaz precisamente porque pertence àquele universo.
Mas naquela noite existia outra peça dentro da peça. Outra relação com o tempo em palco.
Chamava-se Ruy de Carvalho.

Aos 99 anos, o tempo naturalmente percebe-se na voz, por vezes mais frágil, e num movimento mais pausado. Mas seria um erro confundir esses sinais com perda de presença cénica. Ruy de Carvalho continua a dominar o palco.
Talvez até de uma forma mais fascinante.
Não precisa de correr atrás da atenção do público: espera que ela venha ter com ele. Conhece o segundo em que deve olhar, a duração exata de um silêncio, aquele intervalo quase impercetível antes de uma frase em que a plateia ainda não sabe que está prestes a rir.
Um olhar. Uma expressão. Uma inflexão. Quase nada.
E o Coliseu ri.
Nesta peça, é precisamente no humor que se percebe a enorme dimensão do ator. Existe nele qualquer coisa simultaneamente frágil e maliciosa, uma espécie de inocência apenas aparente que Ruy transforma em comédia com uma economia de meios extraordinária. A voz pode chegar mais baixa, o movimento pode ser mais pausado, mas o palco continua a saber quem manda nele.
E isso não nasce apenas do carinho que inevitavelmente sentimos por uma das maiores figuras do teatro português. Confundir a reação do público com indulgência seria diminuir o ator. Aquilo é ofício. Décadas de palco transformadas numa espécie de memória física: saber onde parar, quando falar, quando deixar uma frase suspensa e, sobretudo, quando não fazer absolutamente nada.
E o acaso oferece uma coincidência quase demasiado perfeita para não ser mencionada. 1947 foi o ano da estreia profissional de Ruy de Carvalho e também o ano da primeira transmissão pela BBC de Three Blind Mice, a pequena peça radiofónica de Agatha Christie da qual nasceria A Ratoeira. Quase oitenta anos depois, aquelas duas histórias continuam a crescer lado a lado, com encontros frequentes.
Saí do Coliseu a pensar menos na solução do mistério do que naquele encontro.
Um escritor pode sobreviver nas palavras. Um pintor, no gesto imóvel de uma tela. Um músico pode permanecer eternamente jovem numa gravação. O teatro escolheu uma forma mais frágil de eternidade: precisa de acontecer. Precisa de um corpo, de uma voz, de um palco e de alguém que esteja diante dele. E, quando as luzes se apagam, resta apenas a memória de termos estado lá.
É precisamente por isso que nos comove tanto.
Aos 99 anos, Ruy de Carvalho continua a subir ao palco, a dominar uma sala, a encontrar um silêncio e a provocar uma gargalhada. A Ratoeira, mais de sete décadas depois, continua a fechar-se todas as noites sobre novos espectadores.
Agatha Christie escreveu um mistério para o qual encontrou uma solução. Naquela noite, deixou-nos outro, muito mais difícil: como pode aquilo que dura apenas algumas horas permanecer dentro de nós muito depois de terminar?
O teatro responde sem palavras. Abrem-se as cortinas, vive-se uma vida, fecham-se as cortinas. E, algures entre o abrir e o fechar, alguma coisa ficou.
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