“Mulher, deveras me magoa essa palavra que disseste! Quem foi que mudou a minha cama de lugar? Seria difícil até para um perito, a não ser que um deus em pessoa viesse e, querendo, a pusesse noutro sítio com facilidade. Mas nenhum homem vivo, por mais jovem e forte que fosse, a moveria dali facilmente. Pois há um grande segredo na construção daquela cama, que eu próprio fiz, e mais ninguém.Crescia dentro do pátio uma oliveira de longas folhas,viçosa e florescente; o seu tronco era espesso como uma coluna.” Odisseia de Homero, Canto XXIII, versos 181–191, na tradução de Frederico Lourenço

Partir e regressar são movimentos contrários apenas na geografia. E talvez todo o regresso contenha uma ilusão: os lugares podem continuar onde os deixámos; nós, quase nunca.
Entre um e outro pode caber uma guerra. Podem caber dez anos de mar, homens transformados em memória, monstros que podem ter existido e deuses que talvez sejam apenas a forma antiga de dar um nome ao medo. Pode caber, sobretudo, tempo suficiente para que aquele que regressa já não ser o mesmo que um dia partiu.
Homero precisou de vinte anos para devolver Odisseu a Ítaca. Christopher Nolan precisa de quase três horas para nos fazer compreender que chegar talvez seja a parte mais fácil.
A Odisseia é um filme imenso.
Imenso no mar que parece não terminar, nos homens tornados minúsculos perante a natureza, no som que faz estremecer a sala, na violência e naquela permanente sensação de que Ítaca está sempre um pouco mais longe do que deveria. Visto em IMAX o cinema deixa por momentos de ser uma janela e transforma-se em espaço. Não contemplamos simplesmente o Mediterrâneo. Somos colocados nele.
E aquele mar pouco parece importar-se com quem é herói.
Matt Damon é Odisseu, rei de Ítaca, veterano de Troia e homem condenado, depois de dez anos de guerra, a passar outros dez a tentar regressar à mulher e ao filho que deixou para trás. Nolan, porém, interessa-se menos pelo herói mítico do que pelo homem que sobreviveu a ele.
É simultaneamente uma das ideias mais interessantes do filme e uma das suas maiores fragilidades.
Damon oferece-nos um Odisseu arrependido, ferido, culpado, obstinado. É competente, por vezes comovente, fisicamente convincente. Mas raramente extraordinário. E talvez um Odisseu precise precisamente disso: de não parecer inteiramente comum. Talvez exista até uma ironia nisso: A Odisseia é um filme tão grande que, por vezes, parece tornar pequeno o homem que está no seu centro. Nolan dá-lhe um mar imenso, monstros, deuses, guerra, uma imagem esmagadora e um som que quase nos atravessa. Perante tudo isso, Matt Damon acaba demasiadas vezes por ser apenas uma parte de algo muito maior do que ele. E talvez seja precisamente essa grandeza do filme que lhe tenha custado aquilo que, noutro contexto, poderia ter sido uma interpretação de Óscar: não porque represente mal, mas porque é difícil dominar um filme que parece determinado a dominar tudo, incluindo o próprio protagonista.
Falta-lhe a mêtis de Homero. Aquela inteligência perigosa, a astúcia, a vaidade, o prazer do engano, a impressão de que, quando todos procuram uma espada, Odisseu já encontrou uma saída. Aquiles podia ser o maior dos guerreiros, Odisseu era o homem capaz de vencer quando a força já não era suficiente.
No filme, demasiadas vezes, sentimos o sofrimento do homem antes de admirarmos a inteligência do herói.
Talvez seja deliberado. Nolan não parece particularmente interessado em erguer uma estátua. Prefere perguntar o que resta do homem depois de desmontado o mito.
E é aí que Troia adquire uma importância que não possui da mesma forma em Homero. A guerra não ficou para trás. Viaja com Odisseu. Cada ilha parece menos uma esperança do que mais uma estação de expiação que começou muito antes do mar. O verdadeiro monstro que Odisseu transporta talvez seja a memória do homem que precisou de ser para vencer.
É uma leitura moderna, evidentemente. E, quanto a mim, funciona.
Funciona sobretudo porque Nolan filma tudo com uma intensidade brutal. Polifemo, Circe, as sereias, Calipso, as tempestades: episódios que pertencem ao imaginário ocidental há quase três milénios recuperam uma inesperada sensação de perigo. Sabemos que Odisseu chegará a Ítaca e, ainda assim, por vezes parece impossível que consiga chegar à cena seguinte.
E talvez seja aqui que filme e poema deixem de competir e comecem verdadeiramente a completar-se. Homero dá-nos palavras para imaginar o impossível. Nolan dá a esse impossível, corpo, escala, ruído e matéria. O que no poema atravessamos pela imaginação, no cinema aproxima-se de nós até quase podermos tocar-lhe. Não substitui Homero. Coloca-nos fisicamente dentro de algumas das imagens que Homero deixou abertas durante quase três milénios.
Muito desse efeito pertence ao som.
Ludwig Göransson constrói uma banda sonora inquieta, arcaica e simultaneamente moderna, misturando instrumentos associados ao mundo antigo, vozes, percussão, metais e eletrónica. Em IMAX, a fronteira entre música e desenho sonoro quase desaparece. O mar não se ouve: sente-se, incomoda, teme-se.
Nas sereias, porém, acontece algo ainda mais raro: o som deixa de acompanhar a cena e transforma-se na própria cena. O canto é verdadeiramente arrebatador, belo e ameaçador ao mesmo tempo, e durante alguns instantes compreendemos fisicamente aquilo que Homero apenas precisava de nos dizer: por que razão um homem, mesmo sabendo que aquele canto o pode matar, deseja desesperadamente ouvi-lo. Desde os tempos da escola que o canto das sereias me fascinava, n’Os Lusíadas ou na Odisseia. Intrigava-me sobretudo uma coisa: que beleza poderia existir num canto para que um homem aceitasse abandonar a própria vida apenas para continuar a ouvi-lo? Nunca consegui verdadeiramente imaginá-lo. Ontem, no cinema, percebi. E, por momentos, quase me levantei da cadeira e caminhei em direção ao ecrã…
E, apesar deste momento sonoramente genial, talvez pela primeira vez num grande épico de Nolan, dei por mim a sentir falta de Hans Zimmer.
Não de volume. Disso o filme tem para dar e vender. Falta, em determinados momentos, uma melodia capaz de sobreviver à imagem, um coração.
Göransson oferece tensão, Zimmer talvez tivesse oferecido saudade. E poucas histórias alguma vez escritas precisaram tanto dela como esta. A Odisseia tem monstros, deuses e guerras, mas a força que move tudo possui um nome muito mais simples: casa.
Um tema musical que crescesse discretamente durante a viagem e encontrasse finalmente a sua plenitude em Ítaca poderia ter dado ao filme uma dimensão emocional que nem sempre acompanha a sua extraordinária dimensão física.
A construção narrativa ajuda também a essa imersão. Nolan não nos entrega a viagem como uma linha obediente entre partida e chegada. Conta-a por fragmentos, interrompe acontecimentos, deixa perguntas suspensas e regressa depois a elas, por vezes fechando uma cena que julgávamos já ter terminado. O passado entra no presente, uma explicação chega depois da consequência, e a própria estrutura parece reproduzir a memória de alguém que tenta organizar vinte anos de guerra, perda e sobrevivência. Em vez de observarmos uma história antiga a ser ordenadamente recontada, parece que nos sentamos ao lado de um divã, escutando um homem que procura, fragmento a fragmento, reconstruir a própria história, como se contar o que lhe aconteceu fosse também uma forma de descobrir aquilo em que se tornou.
É também quando regressamos a Homero que percebemos melhor o caminho escolhido por Nolan, e aquilo que, para o percorrer, teve de deixar para trás. A maior perda talvez seja Penélope.
No poema, Penélope não se limita a esperar por Odisseu. É, de certa forma, o seu reflexo. Enquanto ele engana monstros, reis e deuses para sobreviver longe de Ítaca, ela engana os pretendentes para sobreviver dentro dela. Tece de dia e desfaz de noite. Observa, desconfia, calcula. E quando finalmente colocam Odisseu diante dela, não acredita simplesmente. Testa-o.
Ordena que retirem do quarto a cama matrimonial. Odisseu revolta-se: aquela cama não pode ser movida. Ele próprio a construíra em torno de uma oliveira viva, trabalhando o tronco ainda preso às raízes para fazer parte do leito. Penélope sabe então que é ele.
Poucas imagens poderiam resumir melhor a Odisseia. Depois de vinte anos de movimento, navios, guerras, tempestades, ilhas e perdas, a identidade de Odisseu é finalmente provada por aquilo que permaneceu imóvel.
Uma cama que não pode partir porque tem raízes.
Nolan prescinde dessa imagem poderosíssima. E, por mais que admire muitas das suas reinvenções, aqui Homero continua a ser (como não poderia deixar de ser) melhor argumentista.
Mas Nolan compensa-nos noutros cantos. Circe é talvez o melhor exemplo. A feiticeira que transforma os companheiros de Odisseu em porcos poderia facilmente ter resultado num episódio quase caricatural quando transportado literalmente para o ecrã. Acontece precisamente o contrário. É uma das melhores sequências do filme: perturbadora, sensual, estranha, quase febril. E Samantha Morton dá-lhe uma presença brutal. Durante aqueles minutos, não parece interpretar uma criatura mitológica, parece pertencer a um mundo onde homens poderem acordar transformados em animais é uma possibilidade perfeitamente natural.
Também os deuses perdem parte da sua força. A ambiguidade com que Atena surge é cinematograficamente sedutora: deusa, consciência, memória, projeção de Odisseu? Nolan deixa-nos nesse território intermédio. Mas o preço é retirar ao mundo homérico parte da sua estranheza. Para Homero, os deuses não eram metáforas. Interferiam, desejavam, protegiam, castigavam.
Poseidon estava realmente zangado. E digo zangado para não ser brejeiro.
Talvez o cinema contemporâneo tenha alguma dificuldade em aceitar deuses sem os transformar em psicologia.
Mas se Homero me convence mais na natureza divina de Atena, Nolan oferece-lhe uma presença difícil de esquecer. Zendaya surge com uma beleza quase irreal, não apenas bela no sentido convencional, mas serena, luminosa, verdadeiramente adequada a uma figura que deve parecer simultaneamente mulher e algo mais do que humano. E o seu choro no final é uma pequena alteração que, para mim, ganha um significado inesperado. Homero deixa Odisseu chorar quando ouve o aedo cantar a história de Troia. Nolan não lhe concede da mesma maneira esse momento. De algum modo, são as lágrimas de Atena que acabam por devolver ao filme parte dessa emoção ausente, como se até uma deusa pudesse finalmente chorar por tudo aquilo a que assistiu.
Outra escolha que me convenceu foi Helena. Num universo que nunca pretende ser uma reconstituição arqueológica rigorosa da Grécia micénica, o tom de pele de Lupita Nyong’o não me afastou um segundo da personagem. Pelo contrário. Helena precisava, antes de qualquer outra coisa, de possuir uma beleza capaz de justificar a lenda construída à sua volta, e a escolha funciona precisamente porque Nolan parece procurar nela não uma reconstrução histórica, mas uma imagem de beleza quase absoluta. Num filme povoado por figuras que pertencem mais ao mito do que à História, exigir a Helena uma fidelidade física que nem Homero nos deixou descrita parece-me menos interessante do que perguntar se acreditamos que aquela mulher poderia ter sido transformada, durante milénios, em símbolo. Eu acreditei…
E depois chega Ítaca.
O confronto final entre Odisseu e os pretendentes é uma das sequências em que mais gostei da opção de Nolan pela fisicalidade. Pode faltar ao seu Odisseu parte da inteligência quase insolente de Homero, mas naquele momento percebemos tudo aquilo que vinte anos fizeram ao seu corpo. Não é uma luta elegante nem uma celebração limpa do herói que recupera o trono. É violenta, tensa, exaustiva. O homem que regressou precisa literalmente de conquistar outra vez o espaço que um dia foi seu. E quando o combate termina, a vitória sabe menos a triunfo do que a sobrevivência.
Ainda assim, Nolan nunca perde completamente aquilo que torna esta história universal. Por baixo do espetáculo, A Odisseia continua a falar de uma ideia desconcertantemente simples: alguém quer voltar para casa, custe o que custar.
Só que Nolan altera subtilmente a pergunta.
Homero pergunta como pode um homem regressar depois de vinte anos.
Nolan pergunta se, depois de vinte anos, o homem que regressa ainda é aquele que partiu.
É nessa diferença que o filme encontra a sua identidade.
E talvez seja também por isso que comparar constantemente Nolan com Homero acabe por ser menos interessante do que deixá-los conversar. Em algumas coisas, continuo a preferir o poema: a inteligência de Odisseu, Penélope como o seu verdadeiro equivalente feminino, a cama nascida de uma oliveira, os deuses inequivocamente deuses. Noutras, o cinema acrescenta algo que a literatura não poderia acrescentar da mesma forma: o canto das sereias a invadir uma sala, a inquietante transformação dos homens de Circe, o mar a ocupar todo o campo de visão, a brutalidade do regresso, Atena a chorar.
Talvez complementar seja precisamente a palavra certa. Nolan não melhora Homero e Homero não torna Nolan dispensável. Um deixa espaço para imaginarmos, o outro ocupa esse espaço durante algumas horas e obriga-nos a sentir-lhe o peso.
A Odisseia não é Homero filmado. Nem pretende sê-lo. É uma leitura contemporânea de um mito antigo, menos interessada na glória do herói do que no preço que o herói pagou para sobreviver. Por vezes perde humor, astúcia e poesia pelo caminho. Em troca, ganha culpa, brutalidade e uma intensidade física verdadeiramente extraordinária.
Saí do cinema impressionado e com uma certeza talvez pouco conveniente para quem insiste em decidir se Nolan foi fiel ou infiel a Homero: as grandes histórias não sobrevivem três mil anos por permanecerem intactas. Sobrevivem porque conseguem regressar sempre diferentes e, paradoxalmentemente, continuar a ser as mesmas.
Talvez por isso me interessem pouco algumas das discussões que procuram reduzir o filme a escolhas certas ou erradas, fiéis ou infiéis, antigas ou modernas. Até porque uma história povoada por deuses e homens, por uma Helena que atravessou séculos como ideia de beleza e por uma Atena que Nolan torna quase sobrenatural precisamente através da beleza de Zendaya, dificilmente cabe em divisões tão simples. Os mitos nunca foram feitos apenas de uma cor, de uma versão ou de uma verdade. Foram contados, recontados, alterados e imaginados muito antes de chegarem até nós.
Nolan faz exatamente isso. Não coloca Homero num museu. Atira-o novamente ao mar. E, durante quase três horas, coloca-nos lá dentro com ele.
Ainda assim, na humilde opinião de alguém que sempre gostou de Nolan e que coloca esta Odisseia entre os seus melhores filmes, houve apenas uma coisa de que senti verdadeiramente falta.
E, curiosamente, para essa não era preciso IMAX. Não eram precisos monstros, tempestades, exércitos ou sequer o mar. Não era indispensável Zimmer.
Bastava uma oliveira.
Um homem regressa depois de vinte anos e uma mulher precisa de saber se ainda é ele. Não lhe pergunta pelas batalhas que venceu, pelos monstros que enfrentou ou pelos mares que atravessou. Pergunta-lhe, sem verdadeiramente perguntar, por aquilo que construíram juntos.
E ele lembra-se.
Talvez porque, depois de quase três horas em que Nolan nos mostra como o cinema pode tornar gigantesco um mito com quase três mil anos, Homero ainda guarde para si uma imagem que não precisa de espetáculo algum: uma cama construída em torno de uma árvore que ninguém consegue mover sem lhe cortar as raízes.
Talvez seja essa, afinal, a medida de todos os regressos: não reconhecer o caminho de casa, mas ainda saber onde estão as nossas raízes.
E até consigo imaginar, algures entre Ítaca e Hollywood, uma conversa impossível entre os dois.
Homero perguntaria a Nolan por que razão, depois de ter levado para o ecrã mares, monstros, deuses, guerras e tempestades, deixou de fora justamente aquela oliveira.
Nolan talvez sorrisse antes de responder: “Porque essa já era tua. E era tão boa que me roubaria a atenção de Circe, do canto das sereias, do mar, talvez até do próprio Odisseu. Deixá-la contigo foi também a minha maneira de reconhecer a tua genialidade.”
Homero talvez sorrisse de volta. Afinal, ninguém sabia melhor do que ele que as histórias sobrevivem porque viajam, mas também porque algumas coisas permanecem.
E talvez, no fim, os dois concordassem que não vale a pena deixar tudo preto no branco.
Nolan deu movimento ao que Homero semeou nas palavras, Homero deixou raízes onde Nolan escolheu passar.
E entre o homem que partiu e aquele que regressou, entre uma história contada junto ao mar e outra projetada num ecrã quase três mil anos depois, a oliveira continua exatamente onde devia estar.
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