A História Avisa, o Mundo Escuta?

“Aqueles que falham em aprender com a história estão condenados a repeti-la.” Winston Churchill

Há momentos da História em que os acontecimentos parecem ganhar velocidade própria. Não é apenas a sucessão de factos que inquieta, mas o ritmo com que se acumulam.

A guerra a leste. A guerra em Gaza e Médio Oriente. A guerra civil no Sudão.
As tensões em Mianmar, Iémen, Etiópia, Haiti, Mali, Burkina Faso e Níger.

Um ataque norte-americano ao Irão.
A reafirmação pública da capacidade nuclear francesa através da sua força submarina estratégica.
Declarações de firmeza. Demonstrações de autonomia. Linhas vermelhas traçadas diante das câmaras.

À superfície, são episódios distintos. No subsolo geopolítico, são sintomas.

Perguntar se estamos numa fase semelhante à que precedeu as duas grandes guerras do século XX pode parecer alarmista. A História não se repete mecanicamente. Mas há padrões estruturais que merecem atenção.

Em 1914, a Europa vivia sob a ilusão de que a interdependência económica tornava a guerra irracional. O comércio era intenso, os sistemas financeiros estavam integrados, as elites acreditavam que ninguém teria interesse num conflito generalizado. Mas sob essa superfície existia um sistema de alianças rígido, mobilizações automáticas, nacionalismos inflamados e uma corrida armamentista que criara um equilíbrio instável. Bastou uma faísca em Sarajevo para ativar mecanismos que ninguém conseguiu travar.

Em 1939, o erro foi diferente. Não foi ingenuidade económica, foi hesitação estratégica. A remilitarização da Renânia, o Anschluss, os Acordos de Munique. Cada passo foi interpretado como episódio isolado. A crença de que concessões graduais garantiriam estabilidade revelou-se fatal. A subestimação do risco alimentou a escalada.

Hoje, o cenário é distinto, mas não imune a tensões estruturais. Existe dissuasão nuclear, o que teoricamente torna o conflito entre grandes potências menos provável. Mas existe também fragmentação da ordem internacional, rivalidade entre blocos, competição tecnológica e energética, e uma erosão visível da confiança estratégica.

O ataque dos Estados Unidos ao Irão não é apenas uma operação militar. É um ato de sinalização. Num contexto em que Teerão desenvolve capacidades balísticas e mantém influência indireta através de atores regionais como o Hezbollah ou milícias no Iraque, cada ação americana é lida como teste de determinação. O risco não está apenas na ação, mas na interpretação.

O equilíbrio entre Washington e Teerão é assimétrico. Militarmente, os Estados Unidos são incomparavelmente superiores. Mas o Irão joga num tabuleiro híbrido: guerra por procuração, pressão sobre rotas energéticas, capacidade de desestabilização regional. Não é um confronto convencional; é um confronto de resistências prolongadas.

É aqui que a variável política se torna decisiva.

A liderança da maior democracia do mundo não é um detalhe irrelevante no sistema internacional. Em momentos de tensão, a estabilidade depende da previsibilidade. Quando a retórica substitui a estratégia e a teatralização substitui a prudência, o risco deixa de ser apenas militar para se tornar psicológico.

A política internacional não é um laboratório. É um sistema nervoso.

Do lado europeu, a França voltou a sublinhar a sua Force de Frappe, a dissuasão nuclear independente baseada na componente submarina, os submarinos da classe Triomphant, equipados com mísseis balísticos M51, capazes de garantir capacidade de segundo ataque. A mensagem é clara: autonomia estratégica. A Europa não quer depender exclusivamente do guarda-chuva americano.

A dissuasão funciona quando todos acreditam que ninguém quer usá-la.

Mas a História mostra que momentos de transição da ordem internacional são estruturalmente instáveis. O mundo de 2026 não é o de 1914 nem o de 1939. Mas partilha com ambos algo inquietante: a convicção de que a escalada é controlável. Que existe sempre uma etapa antes do abismo.

Há uma imagem que me ocorre. O “túnel da morte” nas feiras populares, onde o artista acelera uma mota contra uma parede vertical. A tensão cresce à medida que aumenta a velocidade. O espetáculo depende da confiança de que o piloto controla o movimento.

O problema começa quando, no auge da velocidade, alguém decide fechar os olhos e tirar as mãos do volante.

E enquanto tudo isto acontece, temos imagens quase surreais a circular: Melania Trump a presidir ao Conselho de Segurança da ONU. Não é sátira, é realidade mediática. Há algo de kubrickiano nesta combinação de risco nuclear, teatralidade política e encenação institucional. Como se estivéssemos num filme onde o absurdo e o perigo coexistem na mesma cena.

Stanley Kubrick compreendia como poucos a proximidade entre racionalidade tecnológica e irracionalidade humana. Em Dr. Strangelove, a lógica da dissuasão transforma-se em tragédia precisamente porque os mecanismos são acionados por falhas humanas.

Não estamos inevitavelmente à beira de uma guerra mundial. Seria intelectualmente desonesto afirmá-lo. Mas estamos num período de transição da ordem global, e as transições são sempre momentos de vulnerabilidade. Ainda assim, 2 mil milhões de pessoas vivem em locais afetados por conflitos armados, o que representa aproximadamente um quarto da população mundial.

A questão central talvez não seja se estes conflitos se tornarão ainda mais globais. É saber se os mecanismos de contenção continuam suficientemente robustos. Se as lideranças compreendem o peso das palavras. Se a exibição de força serve à dissuasão ou à vaidade.

A guerra não começa necessariamente com tiros. Começa com cálculos errados.

A História não se repete.

Mas rima.

E quando a rima se torna demasiado audível, convém escutar antes que o eco se transforme em estrondo.


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