A Culpa é do Passos Costa

“Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado.”
George Orwell

Há uma figura política que governa Portugal há mais de uma década.
Não aparece nos boletins de voto, não presta declarações ao país, não lidera conselhos de ministros. Mas está sempre presente…

Chama-se Passos Costa.

É um híbrido útil. Uma entidade abstrata que junta Pedro Passos Coelho e António Costa numa mesma função simbólica: o governo anterior permanente. Aquele que explica tudo. Aquele que serve sempre.

Se algo corre mal, a culpa é dele.

Quando o Partido Socialista enfrentou o desgaste do Serviço Nacional de Saúde, ouviu-se repetidamente que o problema vinha do “desinvestimento brutal” dos anos da troika. É factual que o período 2011–2015 implicou cortes severos, impostos pelo memorando de assistência financeira. Também é factual que, entre 2015 e 2023, o SNS esteve sob tutela socialista. Mas a narrativa política raramente admite a simultaneidade dessas duas verdades.

Do outro lado, quando o PSD critica o estado da imigração, a crise na habitação ou a situação da TAP, a responsabilidade é frequentemente atribuída aos “anos de governação socialista”, como se cada novo ciclo político começasse com um inventário moral e não com um programa próprio.

Recorde-se, por exemplo, o debate em torno da TAP. O PSD tem insistido na nacionalização decidida pelo Governo de António Costa como símbolo de má gestão pública. O PS, por sua vez, relembra que a privatização parcial ocorreu sob Passos Coelho. A discussão raramente se fixa na avaliação técnica das decisões. Fixa-se na genealogia da culpa.

O mesmo padrão repetiu-se na questão das carreiras congeladas na função pública. O PSD sublinha que foi obrigado a congelar progressões por imposição externa. O PS acusa-o de ter ido “além da troika”. O resultado prático? Um debate sobre intenções passadas, em vez de uma negociação transparente sobre sustentabilidade futura.

E o mecanismo não é apenas histórico. É atual.

Em fevereiro de 2026, o Expresso noticiou que a Sport TV instalada em São Bento, no gabinete do Governo no Parlamento, custava cerca de 20 mil euros ao Estado. A revelação gerou indignação pública e questionamentos políticos. A resposta governativa não tardou: o contrato tinha sido celebrado no anterior Executivo liderado por António Costa.

A informação até pode ser factual, o contrato pode de facto ter origem anterior. Mas o reflexo é revelador. Em vez de se discutir se o gasto faz sentido, se deve ser revisto, renegociado ou simplesmente cancelado, o foco desloca-se para a autoria. A questão deixa de ser “é razoável?” e passa a ser “quem assinou?”.

Viu-se o mesmo padrão nas respostas às falhas na Proteção Civil durante as tempestades recentes, com críticas à coordenação, à comunicação e à capacidade de resposta. Parte das explicações apontaram para modelos organizativos e decisões estruturais herdadas. É plausível. Mas quando a herança se torna argumento automático, o presente fica suspenso.

O “Passos Costa” tem esta elasticidade notável: explica a TAP e a Sport TV, as tempestades e os hospitais, as cativações e os excedentes, a habitação e as parcerias público-privadas. É uma entidade transversal. Uma espécie de princípio unificador da desculpa política.

É um mecanismo politicamente eficaz.

Culpar o governo anterior tem duas vantagens imediatas. Primeiro, preserva a coesão do eleitorado fiel (aquele que assiste ao diálogo PS-PSD como um Porto-benfica). Segundo, simplifica a narrativa. Governa-se menos pelo que se faz e mais pelo que se corrige.

Mas há um custo estrutural.

Quando PS e PSD passam anos a atribuir responsabilidades retroativas, criam no espaço público uma ideia corrosiva: a de que ninguém governa verdadeiramente, apenas administra heranças envenenadas. E se todos são vítimas do anterior, então ninguém é plenamente responsável pelo presente.

É aqui que nasce o terreno fértil para o populismo.

O discurso populista vive da equivalência moral. Vive da ideia de que “são todos iguais”, de que alternam no poder mas partilham o mesmo vício estrutural. Quando o debate político se reduz à troca de acusações históricas, o que desaparece é a discussão concreta de políticas públicas, de métricas, de resultados.

Em vez de se perguntar “qual é a solução?”, pergunta-se “de quem é a culpa?”.
Em vez de se discutir o desenho da medida, discute-se a genealogia do problema.

Esta deslocação é subtil, mas profunda.

Num sistema democrático maduro, a alternância não serve para perpetuar o conflito narrativo, mas para introduzir correção, continuidade ou rutura, consoante o mandato popular. Quando a alternância se transforma apenas num mecanismo de absolvição retrospetiva, o regime perde densidade.

A política deixa de ser projeto e passa a ser justificação.

Pedro Passos Coelho surgiu na liderança do PSD há cerca de quinze anos e deixou o cargo de primeiro-ministro há mais de uma década. António Costa saiu do Governo em 2023. No entanto, continuam ambos a ser convocados como personagens ativas de cada falha contemporânea, como se o tempo político tivesse ficado suspenso num eterno ajuste de contas.

Talvez um dia a Constituição portuguesa inclua formalmente o artigo 0.º:
“Em caso de dúvida, a culpa é do governo anterior.”

Seria, pelo menos, mais honesto.

Mas a democracia vive de outra coisa. Vive da capacidade de assumir o presente como escolha, não apenas como herança. Vive da coragem de dizer “falhámos” sem precisar de acrescentar “porque eles…”.

Se continuarmos a habitar a política como um tribunal do passado, arriscamo-nos a perder o futuro como espaço de decisão.

E o futuro, ao contrário do “Passos Costa”, ainda não pode ser culpado de nada.


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